Por Thomas Magnum

“Eu descobri a arte, a música e a literatura quando era adolescente e fiquei intrigado com seu poder e seus significados. Por que elas têm um efeito tão profundo e transformador em nós e o que elas dizem sobre o mundo em que vivemos?”

ROGER SCRUTON

Muitos acham que a definição clássica de música se resume em dizer que ela é a arte dos sons. Lembro-me de quando comecei meus estudos de harmonia, uma das primeiras definições que li foi: Música é a sucessão dos sons devidamente ordenados.

De fato muita coisa mudou no que corresponde ao que é a música nessa geração. Tanto a vida religiosa quanto a secular perderam a benesse do belo e o estético na harmonização dos sons. Evidentemente isso tem uma ligação absoluta com construções filosóficas do nosso tempo – resumindo a música como uma simples sucessão de sons devidamente desordenados e sem sentido. Influências tais como existencialismo, surrealismo, dadaísmo e uma inumerável quantidade de vertentes filosóficas tem granjeado novos padrões a música.

No que se refere a harmonia, podemos até pensar em uma emanação da irracionalidade e de uma espécie de niilismo autocrata absolutizado e idiotizante. Em nome do gosto individualizado que de fato tem haver com o tipo de formação cultural, intelectual e até religiosa, um amontoado de barulho tem sido chamado de música. O belo tem sido uma especie em extinção na vida comum. A contemplação do que tem beleza tornou-se desprezível e risível para uma geração que não sabe o que é a arte dos sons – quando antes era ligada ao sagrado de forma muito profunda. Achei interessante uma fala do filósofo Roger Scruton que diz, ao ser entrevistado, o seguinte:

O” Sagrado e o Belo estão conectados em nossos sentimentos – ambos nos mandam ficar atrás, ser humildes e abandonar nosso desejo inato de poluir e destruir. Eu penso que vários artistas hoje, independentemente de terem ou não crenças religiosas, têm um senso de que o que há de melhor em sua arte é o ato de consagração. Você encontra esse tema nos quartetos de cordas de George Rochber, na arquitetura de Quinlan Terry, nas pinturas de Andrew Wyeth**.”

 

O Belo faz parte da necessidade do viver humano. O Belo no entanto não se resume a arte quanto obra, mas, a vida como integral. O falar, o andar, o habitar, o comer, o partilhar, o ouvir, o sentir. No entanto a beleza quando subvertida dá lugar a barbárie, a inversão de valores. Filosoficamente a beleza é ligada aos valores. A axiologia é responsável por pensar o valor do Belo, e a vileza da barbárie e da feiura. Cultivemos o belo, o justo, a verdade e a justiça.

Música é sentimento expresso em sons e no universo emissível da grandeza das alturas, diferenciadas e complementadas por sucessões infinitas que estão contidas de forma diatônica ou não. Com tensões ou não, com modulações ou não, com passagem outside ou não, são as expressões humanas através de sons divinamente dados aos homens.

Saber o que de fato a música é e o grau de sua importância para a formação da pessoa quanto ser cultural, social, psicológico e afetivo nos foi furtado pela pós-modernidade. A bem feitoria deveria ser uma volta ao pensar música filosoficamente de forma a enaltecer as coisas permanentes. Permanentes não significa eivada de modernidade e sofisticação, mas, ligada e enraizada num sentido que proporciona um legado de significado que emana afeição nobre, justa, verdadeira e bela.

Não é só ouvir, é discernir e contemplar…

Não é difícil discernir o quanto nossa era tem colocado a música acima do bem e do mal. Não é difícil conversar com pessoas que não se importam se as músicas que elas ouvem e gostam tem mensagens imorais, ou defende uma filosofia existencialista, pragmática ou até mesmo niilista. Há em nossa era pós-cristã (como diria Schaeffer) uma assustadora secularização por parte dos cristãos.

Para exemplificar temos em osso meio evangelical um cancioneiro que é utilizado nas igrejas que assustaria qualquer cristão do século XVI. Músicas que são compostas com o mercado fonográfico em vista e não a beleza, a verdade e a justiça. A hinódia está perdida e o que se quer são louvores contemporâneos (não sou contra louvores contemporâneos contanto, que sejam bíblicos).

De fato a poesia empregada nas músicas sejam elas com fins religiosos ou não deve expressar beleza, contemplação, sentido de ser. Não prezar por tais exigências para beleza, nos leva a algo utilitário, destituído de sentido do belo. Nos leva a barbarizar o belo, a violentar o sentido, a desprezar o sublime e o divino. A feitura despreza a sublimidade, a sublimidade provém do Divino e não de outra gênese***.

Por que abandonamos a beleza? Nosso tempo é o tempo em que o feio é enaltecido, paisagens poluídas, uma urbanidade sem preocupação do o estético que enaltece o belo. Nossos templos agora são apenas caixas, nossos prédios são apenas um grande amontoado de andares sem beleza. O que houve? Um mundo que abandona o sagrado, logo abandonará o belo. Um mundo que se torna pós-cristão será feio e abandonará a beleza que deveria ser conservada e cultivada.

_______
* http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/14314-entrevista-com-o-filosofo-roger-scruton.html
** Ibden
***  Sobre o tema Beleza indico o livro de Roger Scruton (Beleza) e seu documentário – Por que a Beleza importa? – https://www.youtube.com/watch?v=bHw4MMEnmpc&t=2066s.
(Texto publicado no blog Electus)
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