* Transcrição traduzida do documentário “Why Beauty Matters” que foi produzido pela BBC pelo filósofo inglês Roger Scruton

“Em qualquer tempo, entre 1750 e 1930 , se pedisse a qualquer pessoa educada para descrever o objetivo da poesia, arte e da música eles teriam respondido: A BELEZA!

E se você perguntasse o motivo disto, aprenderia que a beleza é um valor tão importante quanto a verdade e a bondade. Mas no século XX a beleza deixou de ser importante A arte gradativamente se focou em perturbar e quebrar tabus morais. Não era BELEZA, mas ORIGINALIDADE atingida por quaisquer meios e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.

Não somente a arte fez um culto a FEIÚRA como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente nosso entorno físico que ficou feio: nossa linguagem, música e maneiras estão cada vez mais rudes, auto centradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto, não tivessem lugar em nossas vidas. Uma palavra é escrita em letras garrafais em todas estas coisas feias, e a palavra é: EGOISMO. “Meus lucros”, “meus desejos”, “meus prazeres”. E a arte não tem o que dizer em resposta, apenas: “sim, faça isso”! Penso que estamos perdendo a beleza e existe o perigo de que, com isso, percamos o sentido da vida.

Sou Roger Scruton, filósofo e escritor. Meu trabalho é fazer perguntas. e durante os últimos anos, venho fazendo perguntas sobre a beleza. A beleza tem sido essencial para a nossa civilização por mais de 2.000 anos. Em seu inicio, na Grécia antiga, a filosofia refletiu sobre a arte, música, arquitetura, e a vida cotidiana. Filósofos argumentaram que, através da percepção da beleza, moldamos o mundo como um lar. Também passamos a entender sua própria natureza, sua essência espiritual. Mas nosso mundo virou as costas para a beleza. E, por este fato, nos encontramos rodeados de feiúra e alienação. Quero persuadí-lo de que a beleza importa, de que não é somente algo subjetivo, mas uma necessidade universal do ser humano. Se ignoramos esta necessidade, nos encontramos em um deserto espiritual. Quero te mostrar a rota de fuga deste deserto. Este é um caminho que nos leva de volta ao lar.

Os grandes artistas do passado, estavam cientes que a vida humana é cheia de caos e sofrimento. Mas eles tinham um remédio para isto, e nome deste remédio, era beleza. A bela obra de arte traz consolação na tristeza e afirmação na alegria. Ela mostra que a vida humana vale a pena. Muitos artistas modernos se esqueceram desta sagrada tarefa. O caos da vida moderna, eles pensam, não pode ser redimido pela arte. Em vez disso, ele deveria ser exposto. Este padrão foi criado quase um século atrás pelo artista francês Marcel Duchamp, que assinou um  urinol (Mictório) com uma assinatura falsa “R.Mutt” e colocou isto numa exibição.

Seu gesto foi satírico, feito para zombar do mundo da arte e a arrogância que ele contém. Mas isto foi interpretado de outra forma, mostrando que qualquer coisa poderia ser arte, como uma luz que acende e apaga… uma lata de excremento… até mesmo uma pilha de tijolos. Não tendo mais a arte um estatuto sagrado; não estando ela mais em um padrão moral e espiritual elevado; ela se torna apenas mais um gesto humano entre outros, não mais significativo do que uma gargalhada ou um grito.

Houve um tempo em que a arte cultuava a beleza. Agora temos um culto à feiura, no lugar. Sendo o mundo perturbador, a arte deveria ser perturbadora também. Aqueles que procuram beleza na arte apenas estão por fora da realidade moderna de beleza. Às vezes a intenção é nos chocar, mas o que é chocante de início, se torna chato e vazio, quando repetido. Isto transforma a arte em uma piada elaborada que perdeu a graça, se os críticos continuarem a encorajar isto, com medo de dizerem que “o imperador está nu”.

A arte criativa não é feita do nada, somente se tendo uma ideia. Sim, idéias podem ser interessantes e prazerosas, mas isto não justifica a apropriação do papel da arte. Se uma obra de arte, não é nada mais do que uma ideia, qualquer um poderia ser um artista e qualquer objeto uma obra de arte… Não existe mais nenhuma necessidade de habilidade, gosto ou criatividade.

O povo aceitou Duchamp, com suas próprias avaliações. Acredito que ele não se livrou da arte, mas se livrou da criatividade. De qualquer forma, os trabalhos de Duchamp ainda influenciam a arte hoje. O artista Michael Craig-Martin, que ensinou muitos jovens artistas britânicos, cujos trabalhos dominam o mundo da arte, segue os exemplos de Duchamp com seu próprio trabalho semiótico chamado, “An Oak Tree” (Um Carvalho). que consiste em um copo de água em uma prateleira, e um texto explicando o porquê isto é um carvalho.

Certamente algo não é uma obra de arte só por mostrar a realidade, incluindo a feiura, e se auto chamar de arte. A arte necessita de criatividade, e criatividade, é sobre dividir, chamar os outros para ver o mundo como o artista o vê. É por este motivo que vemos beleza na arte inocente das crianças. Crianças não estão nos dando idéias no lugar de imagens criativas, nem estão se afundando em feiura. Elas estão tentando afirmar o mundo como o vêem, e dividir o que sentem. Algo da criatividade deliciosamente pura das crianças, sobrevive em cada verdadeira obra de arte. Mas criatividade não é suficiente, e o talento do verdadeiro artista, é mostrar o real sob a luz do ideal, e então, transfigurá-lo. Isto é o que Michelângelo alcança em seu grande retrato de David.

Mas quando encontramos uma cópia em concreto de David, talvez como parte do arranjo de algum jardim, ela não é bela de fato, pois lhe falta o ingrediente essencial da criatividade. Discussões do tipo que eu estive tendo são perigosas. Em nossa cultura democrática, as pessoas geralmente pensam que é ameaçador julgar o gosto de outra pessoa.

Alguns se sentem ainda ofendidos com a sugestão de que existe uma diferença entre bom e mau gosto, ou de que importa o que você olha, lê ou escuta. Mas isto não ajuda ninguém. Existem padrões de beleza, que tem firmes bases na natureza humana precisamos zelar por eles e trazê-los para nossas vidas. Talvez as pessoas tenham perdido a fé na beleza, pois perderam a crença em ideais, ou apenas por terem passado a acreditar no mundo do desejo animal. Não existem valores além dos que são úteis; algo tem valor, se tem utilidade.

E qual é a utilidade da beleza?

“Toda arte é absolutamente inútil”, disse Oscar Wilde, que havia notado isto como um elogio. Para Wilde, a beleza tem um valor maior do que a utilidade. Pessoas precisam de coisas inúteis tanto quanto, ou mais ainda, precisam de coisas úteis. Pense nisto: qual é a utilidade do amor? da amizade? da devoção? Nenhum, de fato. E o mesmo serve para a beleza. Nossa sociedade consumista pensa na utilidade primeiro, e a beleza não passa de um efeito colateral. Sendo a arte é inútil, não importa o que você lê, o que olha, o que ouve. Somos inundados de mensagens por todos os lados, tentados pelo desejo, indiscriminadamente. E esta é uma das razões pela qual a beleza esta desaparecendo de nosso mundo. Recebendo e gastando, vivemos para nada exaustando nossas energias.

Na nossa cultura de hoje, a propaganda é mais importante que a obra de arte, e as obras de arte sempre tentam ganhar nossa atenção como as propagandas o fazem, sendo rudes ou escandalosos, como este crânio de platina ornado de pedras, por Damien Hirst.

Como as propagandas, as obras de arte de hoje buscam criar uma marca, mesmo não tendo produto a vender, exceto elas mesmas. A beleza partiu para duas direções: para culto da feiura nas artes, e para o culto da utilidade no cotidiano. Estes dois cultos foram, juntos, para o mundo da arquitetura. Na virada do séc XX, arquitetos, como artistas, passaram a ficar impacientes com a beleza e a substituí-la por utilidade. O arquiteto americano, Louis Sullivan, expressou a crença dos modernistas, quando disse que “a forma segue a função”.

Em outras palavras, “pare de pensar na aparência de uma construção e pense, em vez disso, no que ela faz”. A doutrina de Sullivan, tem sido usada para justificar o maior crime contra a beleza que o mundo jamais viu, que é o crime da arquitetura moderna.

Eu cresci nos arredores de Reading, que era uma charmosa cidade vitoriana, com ruas arborizadas e igrejas góticas, coroadas por elegantes prédios públicos e hotéis. Mas nos anos 60 as coisas começaram a mudar. Aqui, no centro, uma rua inteira foi demolida para dar lugar a escritórios e uma estação de ônibus. Tudo projetado sem preocupação com a beleza. e o resultado prova, claramente, que se você considerar somente a utilidade, as coisas que você construiu, vão se tornar inúteis. Este prédio foi abandonado, pois ninguém tem uso para isto; ninguém tem um uso para isso pois ninguém quer ficar nele; ninguém quer ficar nele porque ele é feio!

Para onde olhamos, há feiura e mutilação. Os escritórios e a estação de ônibus foram abandonadas e as únicas coisas que habitam o local são pombos, cobrindo os pavimentos. Tudo foi vandalizado. Mas não devemos culpar os vândalos. este lugar foi construído por vândalos, os pichadores apenas finalizaram o trabalho.

A maior parte de nossas cidades tem áreas como esta, em que prédios foram eretos apenas para uso, e que rapidamente se tornaram inúteis. Não que os arquitetos tenham aprendido com este desastre… Quando o público começou reagir contra o brutal estilo do concreto nos anos 60, os arquitetos apenas o substituíram por um novo tipo de lixo: paredes de vidro sustentadas por vigas de ferro com detalhes absurdos que não combinam. O resultado é um outro tipo de fracasso, que existe apenas para ser demolido.

No meio de toda esta tragédia, encontramos um fragmento das ruas que foram destruídas. O que foi uma ferraria, hoje é um café, e as pessoas vêm aqui, de toda a parte, porque este é a última gota de vida que resta; e a vida vem da construção. Isto me leva novamente à observação de Oscar Wilde, de que toda arte é absolutamente inútil. Priorize a utilidade e você a perderá, priorize a beleza e o que você construir será útil para sempre. Ocorre que nada é mais útil que o inútil. Nós vemos isto na arquitetura tradicional, com seus detalhes decorativos, ornamentos livres da “tirania do útil”, que satisfazem a nossa necessidade por harmonia e de uma forma estranha, elas nos fazem nos sentir em casa. Eles nos lembram de que temos mais que necessidades práticas, não somos governados apenas por instintos básicos como comer e dormir, temos necessidades morais e espirituais também, e se uns precisam ser satisfeitos, os outros também. Todos sabemos como é, até mesmo no dia-a-dia, ser transportado de repente por coisas que vemos, do mundo ordinário dos nossos desejos, para a iluminada esfera da contemplação. O raio do sol, a lembrança de uma melodia, o rosto de uma pessoa amada, isto nos toma nos momentos mais distraídos que, de repente, a vida vale a pena.

Estes são momentos atemporais, em que sentimos a presença de outro e mais elevado mundo. Desde o começo da civilização ocidental, poetas e filósofos viram a experiência da beleza como uma aproximação com o divino. Platão, escrevendo em Atenas no séc IV a.C, argumentou que a beleza é o sinal de uma outra ordem, superior.

Contemplando a beleza com os olhos da mente, ele escreveu, você será capaz de nutrir a verdadeira virtude e se tornar amigo de Deus.

PLATÃO

Platão era um idealista. ele acreditava que os seres humanos são peregrinos e passageiros neste mundo, que estão sempre aspirando para além dele, para o eterno reino onde estarão unidos com Deus. Deus existe, em um mundo transcendente, para o qual nós humanos aspiramos, mas que não podemos conhecer diretamente. Mas uma forma de vislumbrar esta esfera divina daqui debaixo, é através da experiência da beleza. Isto leva a um paradoxo. Para Platão, a beleza era primeiramente, e sobretudo, a beleza do rosto humano e da forma humana. O amor da beleza, ele pensou, se origina em Eros, a paixão que todos nós sentimos. Chamaríamos isto de “amor romântico”. Para Platão, Eros era uma força cósmica, que flui através de nós sob a forma de desejo sexual. Porém se a beleza humana evoca desejo, como ela pode ter relação com o divino? Desejo é para o indivíduo, vivendo neste mundo. É uma paixão urgente. O desejo sexual nos dá uma escolha: adoração ou lascívia, amor ou luxúria. Luxúria é sobre tomar, mas amor é sobre dar. Luxúria traz a feiura, a feiura da relação humana onde um pessoa trata a outra como um objeto dispensável. Para alcançar a fonte da beleza, devemos abandonar a luxúria. E este sentimento, sem a luxúria, é o que queremos dizer hoje com “amor platônico”. Quando vemos beleza em uma pessoa, é porque vislumbramos nela a luz da eternidade brilhando de uma fonte divina, além deste mundo.

A bela forma humana é um convite para nos unirmos a ela, espiritualmente, não fisicamente. O que sentimos sobre beleza é como o que sentimos sobre religião: não é um sentimento sensual. Esta teoria de Platão é magnífica. Beleza, ele pensou, era uma visitante de outro mundo. Não podemos fazer nada com ela, salvo contemplar sua radiante pureza. Qualquer outra coisa, poluí-a, profana-a, destruindo sua aura sagrada. A teoria de Platão pode parecer ultrapassada para as pessoas de hoje, porém é uma das mais influentes teorias da história. Durante nossa civilização, poetas, contadores de histórias, pintores, padres e filósofos, foram inspirados pela visão de Platão sobre sexo e amor. Se olharmos na seção de poesia, encontraremos muitos livros de pessoas que tentavam explicar a visão platônica do erótico.

Veja este aqui! “The death of Arthur” de Thomas Mallory, John Donne, aqui e ali, “Sir Gawain and the Black Knight”, Chaucer, especialmente em “A Knight’s Tale”, poemas manuscritos de Poe, inacreditáveis expressões da visão platônica… Cavalcanti, que foi o mestre de Dante e Dante mesmo inclusive, Spenser, claro “The Faerie Queen”, Dafydd ap Gwilym onde temos a versão galesa (País de Gales) disto, As Mulheres Trubadur, Christina Rossetti, que tem uma visão mais Vitoriana, e assim vai…

O pintor renascentista Sandro Botticelli, ilustrou a teoria nesta famosa pintura, que mostra o nascimento de Vênus, deusa do amor erótico. Vênus olha para o mundo de um local além do desejo, ela nos convida a transcender nossas paixões terrenas e nos unirmos a ela, através do amor puro à beleza A musa de Botticelli foi Simonetta Vespucci. Botticelli a amou até o fim de sua breve vida, e pediu para ser enterrado a seus pés. Ela era, para ele, a representação do ideal de Platão: era a beleza a ser contemplada, mas não possuída.

Platão e Botticelli nos dizem que a verdadeira beleza está além do desejo sexual. Então podemos encontrar beleza não somente em uma pessoa jovem e desejável, mas também num rosto envelhecido, cheio de pesar e sabedoria, como a pintura de Rembrandt. A beleza de um rosto é o símbolo de uma vida expressa nele, sua carne se transforma em espírito e ao fixar nossos olhos nele, vemos através da alma. Pintores como Rembrandt foram importantes por nos mostrarem a beleza como algo corriqueiro, ela está ao nosso redor, precisamos apenas dos olhos para vê-la e do coração para senti-la.

O acontecimento mais banal pode ser transformado em algo belo, por um pintor que pode ver o coração das coisas. Enquanto a crença em um Deus transcendente estava enraizada na nossa civilização, artistas e filósofos continuaram a ver a beleza do ponto de vista de Platão. A beleza era a revelação de Deus, no aqui e agora.

Esta religião ligada à beleza durou dois mil anos, mas no séc XVII a revolução científica começou a semear a dúvida. A visão medieval aceitou a idéia de que a terra era o centro do universo, Então, Copérnico e Galileu, provaram que a terra gira em torno do sol, e Newton completou o trabalho, descrevendo o universo como um relógio onde cada momento se sucede mecanicamente.

Esta era a visão do Iluminismo, que descrevia nosso mundo como se não houvesse mais lugar nele para deuses e espíritos, nem para valores e ideais. Sem lugar para nada, além do movimento regular do relógio que move a Lua em torno da Terra e a Terra em torno do Sol sem nenhum propósito maior.

No centro do universo newtoniano, há um vazio com o “formato de Deus”, um vácuo espiritual, e um filósofo em particular buscou preencher este vácuo: o terceiro Conde de Shaftesbury. A ciência explica as coisas, porém, para Shaftesbury, parte do mundo estava ainda, de alguma forma, incompleta. Podemos ver o mundo por outra perspectiva, não buscando usá-lo ou explicá-lo, mas simplesmente contemplando sua aparência, como podemos contemplar um campo ou uma flor.

A idéia de que o mundo é intrinsecamente significativo, coberto de um encantamento que não necessita de doutrina religiosa para percebê-lo, uma vez que é uma profunda necessidade emocional. A beleza não foi colocada no mundo por Deus, mas descoberta nele pelas pessoas. O ideal de Shrewsbury encorajava o culto à beleza, que elevava a apreciação da arte e da beleza ao papel que fora ocupado pelo culto à Deus. A beleza deveria preencher o vazio com o “formato de Deus”, criado pela ciência. Artistas não eram mais ilustradores das historias sagradas, a serviço da Igreja; eles estavam descobrindo as historias por si mesmos, ao interpretar os segredos da natureza. Campos, que costumavam ser meros panos de fundo para imagens sagradas, se tornaram o foco, com humanos apenas de figuração.

Mas para Shrewsbury, não era necessária uma obra de arte para nos mostrar a beleza do mundo. Apenas devemos olhar para as coisas com atenção e sentimentalidade. Shrewsbury está nos dizendo: “pare de de usar as coisas, de querer explicá-las, contemple-as, em vez disso. Assim entenderemos o que elas significam. A mensagem da flor, é a flor. Budistas Zen disseram coisas semelhantes. somente deixando nossos interesses de lado é que encontraremos da verdade real da flor.

Vendo as coisas por este lado, descobrimos sua beleza. O maior filósofo do Iluminismo, Immanuel Kant, foi profundamente influenciado pelas idéias de Shrewsbury. Kant argumentou, que a experiência da beleza, vêm quando abandonamos nossos interesses, quando olhamos para as coisas não com a intenção de usá-las para nossos propósitos, explicar como elas funcionam, ou satisfazer alguma necessidade ou desejo, mas apenas para observá-las e assimilar o que elas são.

Considere a alegria que sentimos ao segurar o bebê de uma amiga, você não quer fazer nada com o bebé, você não quer comê-lo, usá-lo para algo, ou fazer uma experiência científica com ele. você apenas quer sentir a vida que emana quando você coloca todo o seu foco neste bebê e não mais em si mesmo. Esta é o que Kant descreveu como uma atitude desinteressada, a atitude que permeia nossa experiência da beleza.

Explicar isto é extremamente difícil, pois se você não vivenciou isto, não sabe o que significa. Mas todos, ao ouvir boa música, olhar uma paisagem sublime, ler um poema que parece conter a essência daquilo que descreve, todos que passam por uma experiência como essa dizem: “Sim, isto é suficiente!”. Mas por que esta experiência é tão importante ? O confronto com a beleza é tão imediato, tão vívido, tão pessoal, que parece difícil que pertença ao mundo ordinário. Sim, a beleza brilha sobre nós através de coisas comuns. Será esta uma característica do mundo ou apenas nossa imaginação? Na maior parte do tempo, nossa vida gira em torno de nossas preocupações diárias, mas às vezes, nosso foco é mudado, na presença algo muito mais importante que nossos desejos e interesses imediatos, algo que não é deste mundo.

De Platão a Kant, filósofos tentaram capturar a peculiar maneira com a qual a beleza nos comove, como um súbito raio de sol, ou o ímpeto do amor. Para Platão, a única explicação de tal experiência, era sua origem transcendente, que nos atinge, como a voz de Deus. E Kant também, de uma maneira muito mais sóbria, crê que experienciar a beleza nos conecta com o mistério máximo da existência. Através da beleza somos trazidos à presença do sagrado.

Podemos entender o que estes filósofos queriam dizer, se refletirmos no que sentimos na presença da morte, especialmente a morte de uma pessoa amada. Olhamos com aversão para o corpo cuja a vida se esvaiu, relutamos em tocar o corpo, o vemos como não exatamente parte do nosso mundo, quase como um visitante de uma outra esfera.

E o mesmo sentido do transcendente, emerge da experiência que inspirou Platão: a experiência de se apaixonar. Estas duas coisas são parte do universo humano, e são experiências de um tipo estranho. O rosto e o corpo do ser amado estão imbuídos de intensidade de vida, mas eles são como o corpo de uma pessoa morta em um aspecto crucial: parecem não pertencer ao mundo cotidiano. Poetas gastaram muitas palavras com esta experiência, que nenhuma palavra parece descrever completamente. Mas estas grandes mudanças no sonho da vida, a necessidade de se unir a outra pessoa, a perda de um ser amado, são momentos que entendemos como sagrado.

Se nós olharmos para a historia da beleza ideal, veremos que filósofos e artistas tiveram boas razões para conectar o belo e o sagrado. E de ver nossa necessidade de beleza como algo profundo em nossa natureza. Parte de nossa necessidade de consolação, em um mundo de perigos, tristeza e sofrimento.

Hoje muitos artistas olham para o ideal de beleza com desdém e o substituíram por uma vã forma de viver, que não tem real conexão com o mundo que agora nos rodeia. Então houve um desejo de profanar as experiências do sexo e da morte, representando-as de forma trivial e impessoal, que destroem todo o senso de seu significado espiritual.

Assim como aqueles que abandonaram a religião têm necessidade de zombar da fé que perderam, assim também os artistas, hoje, sentem a necessidade de tratar a vida humana de maneira insignificativa e de zombar da busca pela beleza. Esta deliberada profanação é também a negação do amor, uma tentativa de refazer o mundo como se o amor não fizesse mais parte dele.

E isto, em minha opinião, é a principal característica da cultura pós-moderna, que é uma cultura sem amor, determinada a representar o mundo como não merecedor de ser amado. Claro que, este hábito de duelar com o lado negativo da vida humana não é novo.

Desde o inicio da nossa civilização, civilização esta tem sido uma das tarefas da arte: pegar o que é mais doloroso na condição humana, e redimi-la em uma obra de beleza. A arte tem a habilidade de redimir a vida, encontrando beleza até nos piores aspectos dela. “A Crucificação” de Mantegna, ao mostrar a mais feia e cruel das mortes, alcança um tipo de majestosidade e serenidade, que compensa o horror que mostra.

Em face à morte, os seres humanos ainda são capazes de mostrar nobreza, compaixão e dignidade. E a arte nos ajuda a aceitar isto, mostrando-a sobre tal perspectiva.

E sobre as coisas que não são trágicas, mas apenas sórdidas ou depravadas, Pode a arte encontrar beleza nelas? Esta pintura de Delacroix, nos mostra a cama do artista, em toda a sua sórdida desordem. Ele imprime beleza em algo que não a possui e transmite um tipo de bênção em seu próprio caos emocional. Delacroix diz: “Veja como estes lençóis relembram os pesadelos e a energia atormentada da pessoa que estava nela e como as luzes capturam isto, como se ainda estivessem animadas pelo dormente” A cama é transformada pelo ato criativo e se transforma em um vívido símbolo da condição humana, que estabelece uma ligação entre nós e o artista.

Algumas pessoas descrevem a obra “My Bed”, de Tracey Emin neste sentido. Porém existe toda diferença no mundo entre uma verdadeira obra de arte, que transforma o feio em belo, e a falsa obra de arte que apenas divide a feiura que mostra. Esta é a vida moderna, representada em toda a sua aleatoriedade e desordem.

Como poderia ser isto uma bela obra de arte, se não pretende transformar a matéria prima em uma idéia ? É apenas mais uma realidade sórdida entre outras, literalmente, uma cama desarrumada. Voltamos à questão levantada pelo “Urinol (Mictório)”de Duchamp: qualquer coisa pode ser arte? Esta questão preocupa tanto os inovadores quanto os tradicionalistas, como Alexander Stoddart, um escultor monumental cujos trabalhos são mundialmente vistos, inclusive na galeria da Rainha, no palácio de Buckingham.

Os paradigmas da arte viraram as costas ao antigo currículo que coloca a beleza e o engenho como prioridades. Aqueles como Alexander Stoddart, que tentam restaurar a antiga conexão conexão entre o belo e o sagrado, são visto como antiquados e absurdos. O mesmo tipo de crítica ocorre com os arquitetos tradicionalistas. Um dos alvos é Leon Krier, arquiteto da moderna cidade do príncipe Charles, Poundbury. Projetando modestas ruas, inspiradas nos moldes tradicionais, usando os padrões e tão queridos detalhes que nos serviram por séculos, Leon Krier criou uma genuína cidade. As proporções são proporções humanas, os detalhes são confortantes aos olhos. Esta não é uma grande ou original arquitetura, nem tenta ser. É uma modesta tentativa de colocar as coisas no lugar, seguindo padrões e exemplos baseados na tradição. Isto não é nostalgia, mas conhecimento, que foi passado através do tempo.

A arquitetura que não respeita o passado, não está respeitando o presente, pois não está respeitando as necessidades básicas das pessoas, que é a de construir um lar duradouro. Tenho mostrado algumas das maneiras pelas quais os artistas e arquitetos seguiram o chamado da beleza. E fazendo, deram significado ao mundo. Os mestres do passado, reconheceram que temos necessidades espirituais assim como desejos animais. Para Platão, a beleza era um caminho para Deus enquanto pensadores do Iluminismo viram a arte e a beleza, como formas de nos salvarmos do vazio da rotina e alcançarmos um nível superior.

Mas a arte virou as costas para a beleza. Se tornou escrava da cultura do consumismo, alimentando nossos prazeres e vícios e os afundando em seu próprio desgosto. Isto é, em minha opinião, a lição das mais feias formas de arte e arquitetura. Elas não mostram a realidade, mas se vingam dela estragando o que deveria ter sido um lar e nos deixando desolados e alienados em um deserto espiritual. É claro que é verdade que existem mais coisas no mundo hoje que nos distraem e preocupam. Nossas vidas são cheias de altos e baixos, lutamos contra o barulho e a distração, e nada resolve. A resposta correta, no entanto, não é abraçar esta alienação, mas olhar para rota de escape do deserto, que nos levará a um ponto entre o real e o ideal, que podem ainda existir em harmonia. Em minha vida, achei esse caminho mais fácil através da música, do que entre qualquer outra forma de arte.

Pergolesi tinha 26 anos quando escreveu “Stabat mater”, que descreve o pesar da Virgem Sagrada, diante da cruz do Cristo moribundo. Todos o sofrimento do mundo é simbolizado em suas esplêndidas linhas. Visto que Pergolesi estava sofrendo de tuberculose quando compôs Stabat Mater, ele é aquele filho, morrendo na cruz também. De fato, ele morreu alguns meses depois do término da obra. Esta não é uma complexa ou ambiciosa peça de música, simplesmente a expressão da fé de um compositor, ela mostra a forma, pela qual profundos e atormentados sentimentos podem atingir unidade e liberdade através da música. A voz de Maria é escrita para dois cantores, a melodia se ergue lenta e dolorosamente eliminando a dissonância quando as vozes se confrontam, representando o conflito e o pesar que ela carrega.

Aqui eu descrevi a beleza como uma fonte essencial. Através da busca da beleza, modelamos o mundo como um lar e fazendo-o, amplificamos nossas alegrias e o consolo para nossas tristezas. Arte e música, irradiam significado para a vida cotidiana, e através delas, nos tornamos capazes de enfrentar as coisas que nos preocupam e encontrarmos consolo e paz em suas presenças. Esta capacidade da beleza, de redimir nosso sofrimento, é o que a torna capaz de ser vista como uma substituta para a religião. Por que dar prioridade à religião? Por que não dizer que a religião é uma substituta da beleza? Melhor ainda, por que descrevê-las como rivais? O sagrado e o belo, um ao lado do outro, duas portas que levam a um único espaço, e neste espaço, encontramos nosso lar.

 

Tradução: Beatriz e Felipe Angelim.

Publicado originalmente no blog Ramos de Cultura.

 

 

 

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