Demoníaca para alguns, inspiração da Banda Catedral para outros: assim é vista a banda Legião Urbana para a maioria de evangélicas e evangélicos brasileiras e brasileiros. A questão é que Legião Urbana é um verdadeiro patrimônio cultural brasileiro e para o nosso rock, um grande tesouro da música nacional. Poucas bandas brazucas produziram (ou produzem) uma poética tão bela, profunda e também bastante significativa como a trupe de Renato Russo e mais uma vez nós, cristãs e cristãos, por causa de nossos legalismos, perdemos mais uma grande oportunidade de levantar o nome do Eterno em agradecimento pelo potencial criativo oriundo de si mesmo que Ele compartilhou com a coroa de Sua tão perfeita criação.

Pelas circunstâncias em que o próprio Russo viveu e faleceu, muita gente prefere abster-se de suas criações. Mas além de não haver nenhuma razão realmente sensata e também plenamente coerente para defender tal posição, cabe aqui lembrar as doutrinas da Criação, da Queda, do Pecado e também da Graça Comum e que não é por causa da vida particular errônea de uma pessoa que a mesma não produza coisas boas, “pois tudo o que Deus criou é bom e, recebido com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado” (2Tm. 04:04e05). Exemplo disto é o escritor Gregório de Mattos, o tão famoso “boca do inferno”, que, apesar da vida tão depravada, é um dos autores mais estudados pela Literatura Nacional e também pela Academia pelas são obras únicas. A própria Bíblia é repleta de histórias totalmente reprováveis, mas nem por isto, para nós, ela deixa de ser totalmente digna de confiança.

Assim sendo, eu quero convidá-lo (a) a meditar na canção que eu, particularmente, chamo de “a música mais cristã da Legião Urbana” (mas como esquecer de “Monte Castelo”, referência da participação brasileira na  Segunda Guerra Mundial onde é citado o verdadeiro tratado paulino a respeito do amor que é encntrado em 1Co. 13?), procurando a sabedoria do Soberano. Eu estou falando de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”, uma música particular da banda brasiliense. Leve, agradável e com uma pegada que favorece as rodas de violão, “Quando o sol bater na janela do teu quarto” é um verdadeiro poço de beleza e poesia. Desfaça-se de seus preconceitos tolos e também inúteis e vamos, sem delongas, à letra da canção supracitada:

 

“Quando o sol bater

Na janela do teu quarto

Lembra e vê

Que o caminho é um só.”

 

Quando o sol bater na janela do teu quarto” já começa com uma afirmação que é impossível não relacionar com as sagradas letras: “Lembra e vê que o caminho é um só” e é mesmo! Está certíssimo. O que é o caminho? Ou melhor perguntando, QUEM é o Caminho? Jo. 14:06 nos responde claramente:

 

“Respondeu-lhe Jesus: EU SOU O CAMINHO, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.”

 

E mais tarde, em Atos dos apóstolos, o apóstolo Lucas nos diz também o seguinte:

 

Por esse tempo houve também um grande alvoroço acerca do CAMINHO.”

Ats. 19:23

 

Ou seja: mesmo sem saber, Renato Russo fala o que a Bíblia já dizia há milênios: o caminho é mesmo um só: o caminho único é Jesus Cristo, o Filho de Deus, a revelação máxima encarnada do próprio Deus enviada para todos nós a fim de salvar eternamente todo aquele que crê (Jo. 01-03:16), cuja ressurreição é a esperança maior(1co.15:16-22). Glória a Deus! Acaba que o Sr. Russo lembra a todos os cristãos sensíveis, o sentimento que devemos ter ao despertamos: vermos o sol iluminando e aquecendo justos e injustos e orarmos com a firme convicção de que só existe um caminho, uma verdade e também uma vida que é totalmente digna de ser vivida – que é exatamente o próprio Cristo – trilhando com alegria tal caminho. Vamos acordar diariamente e permitir que o sol ilumine a escuridão antes existente em nosso lar sempre lembrando e vendo que “o caminho é um só”. Mas a canção não termina aqui:

 

Por que esperar

Se podemos começar

Tudo de novo?

Agora mesmo!”

 

A música aqui em questão, por seu nome e refrão, é um comentário acerca do que estamos fazendo com a nossa vida, a validade e utilidade dos nossos dias. E nas primeiras estrofes, a Legião prossegue com a reflexão.

Aqui a letra fala muito sobre renascimento, novas oportunidades, mas especificamente a correção de erros que foram outrora cometidos. Aqui existem muitos ensinamentos específicos para cristãos também: devemos entender que cada dia que temos é a mais perfeita manifestação da misericórdia do Senhor para todos e todas também, pois a cada dia elas se renovam e é exatamente por isto que nós não somos consumidos. Muitas vezes em nossas falhas, erros, equívocos, criamos uma áurea vitimista acerca de nós mesmos ou então culpamos tudo e todos, mas nos falta coragem e humildade para reconhecer o nosso pecado. E aí perdemos o foco, a auto-estima, caímos em lamentos infindáveis (e também completamente infundáveis) e estagnamos ao invés de levantarmos as mangas e trabalharmos contra nós mesmos a fim de nos livrar de hábitos danosos. E isto se dá com o agora, com o dia temos hoje, com as oportunidades que Deus nos dá. Pense que os nossos pecados são muito mais que suficientes para Deus derramar a Sua ira sobre nós (e ai daquele que cair nas mãos do Senhor), mas o Seu amor nos dá dias, nos dá novas manhãs, nos dá novas chances de arrependimento e é exatamente aí que devemos aproveitar com gratidão e atitudes as oportunidades que nos foram dadas pelo Pai das Luzes, que não muda e também não possui qualquer sombra de variação (Tg. 01:17). Vamos seguir o conselho de Renato Russo e por quais motivos corrigir amanhã o que podemos corrigir hoje? Vamos recomeçar “tudo de novo, agora mesmo”pela Graça do Altíssimo, pois o amanhã só O pertence (Tg 4.13-17).

 

A Humanidade é desumana,

Mas ainda temos chance.

O sol nasce pra todos

Só não sabe quem não quer!”

 

Prosseguindo com a nossa reflexão cristã de Legião Urbana, é hora pensarmos sobre a Humanidade contemporânea. E até nisto a Bíblia consegue ser atual e ser também totalmente válida. O que Renato Russo canta no primeiro verso acima – “A Humanidade é desumana” – pode muito ser traduzido por:

 

 

Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na Terra e que era continuamente mau todos os desígnios de seus corações.”

Gn. 06:05

 

Fala-se aqui na Depravação Total real da raça humana. Fala-se aqui da Queda, do mundo que jaz no maligno, do pecado, da injustiça, do mundo onde abundou o pecado por causa da estupidez humana. Na canção, Renato, em uma máxima, traça o panorama imutável da Humanidade, um panorama que não surge de um coração artístico, mas que é oriundo das verdades escriturísticas. É a Bíblia que afirma – e a nossa experiência confirma – que a maldade está presente no mundo. Contudo, a canção prossegue e mais uma vez ela continua parafraseando o Evangelho:

 

A Humanidade é desumana,

Mas ainda temos chance.

(Mas Deus prova o Seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm. 05:08).)

 

O mundo é ruim sim. O pecado está entre nós sim. “A Humanidade é desumana”, sim, “mas Deus prova o Seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm.05:08). Ainda há esperança, “ainda temos chance”. E foi o próprio Deus quem nos Deus tal chance. Ele poderia muito ter nos consumido com o Seu santo furor desde o Éden (e Ele não seria injusto por isto), mas Ele nos amou primeiro (1Jo. 04:19) e nos deu esperança no Verbo vivo encarnado. Assim, o próprio Deus venceu a maldade, o pecado, nos deu nova chance. Aqui, Renato Russo e a Legião Urbana apenas confirmam o que a Bíblia diz: a Humanidade está afundada no oceano de pecado, mas temos uma nova chance de vida em abundância e Eternidade somente em Cristo. Aleluia! Hosana nas alturas!

 

O sol nasce pra todos,

Só não sabe quem não quer!”

 

E Legião Urbana segue inconscientemente (será?) cantando as verdades bíblicas. Após nos dizer que mesmo com a maldade humana, ainda existe algo totalmente bom a se esperar, a canção nos apresenta um exemplo cotidiano: os dias que insistem se renovando, o amanhecer que segue se repetindo, a vida que refloresce e que nos dá novas chances para a correção da vida. Na verdade, aqui, explicitamente, Renato canta o que Jesus já havia nos dito no que hoje é considerada hoje a divisa máxima da Doutrina da Graça Comum:

 

Para que vos torneis filhos do vosso Pai que estás nos Céus, porque é Ele que faz nascer o Seu sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos.”

Mt. 05:45

 

Você pode não gostar de Legião Urbana, pode demonizar a música não confessional e religiosa, mas você há de concordar que a letra da “canção do capiroto” aqui se rendeu completamente ao que a Bíblia diz aqui em seu texto. E diferente do que fez Satanás no deserto ao tentar Jesus Cristo (Mt. 04:01-11), não existe qualquer erro quanto ao contexto e mensagem. Mesmo com a Humanidade caída em erros, ainda temos uma nova chance: Jesus Cristo, o Caminho, e isto se mostra diariamente com o próprio Deus revelando-se por intermédio de Sua Criação a todos os seres humanos, mantendo-os e dizendo: “Hei, eu estou aqui, cuidando de vocês, amando vocês. Arrependam-se de todos seus pecados que outrora foram cometidos por cada um de vocês, voltem ao Primeiro Amor, voltem a Mim. Vejam que estou dando novos dias para vocês se arrependerem!” Que verdade emocionante. Que bom servir a um Deus assim! Que poder ser portador de tal mensagem de esperança, a única e também a real Esperança.

 

Até bem pouco tempo atrás

Poderíamos mudar o mundo

Quem roubou nossa coragem?”

 

Os versos acima me fazem lembrar bastante de todo o passado da verdadeira fé cristã: um passado regado a sangue, dor, sofrimento, renúncia, mas também muitas vitórias. Cristo, os apóstolos, os reformadores, os profetas antigo testamentários, todos, exatamente todos, movidos pelo Espírito Santo para agradarem o Criador deixarem as suas marcas na história. Hoje, com tanto conforto, parece que esquecemos que nós estamos aqui de passagem, mas temos uma missão. Temos o dever da relevância, de ser diferente. Assim sendo eu também pergunto: se nossos pais foram tão corajosos a ponto de alvoroçarem o mundo por causa da Fé, “quem roubou nossa coragem?” de fazer o mesmo? Que possamos recuperá-la o quanto antes.

 

Tudo é dor

E toda dor vem do desejo

De não sentirmos dor.”

 

Interpretando agora a estrofe final, chegamos à parte mais interessante da letra: “tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor.” Que definição brilhante da vida humana! Torna-se ainda bem melhor ainda quando ela é aplicada à vida cristã. De fato, grande parte de nossas experiências são dor. A dor da saudade, as tristezas, as dores das renúncias, dos diversos sacrifícios que fazemos, muitas vezes em favor do próximo até. Mas o que Renato Russo conseguiu notar é o invisível que nos cerca. A dor que sentimos, na verdade, é tão somente uma tentativa de não sentir dores futuras. A dor de perdemos alguém, a dor de não alcançarmos os nossos objetivos, a dor da frustração. . .

Como não pensar também no próprio Jesus Cristo. Foi Ele que sentiu a dor máxima em nome do desejo de não sentir mais dor. A dor do medo da morte no Getsêmani, a dor de carregar a cruz, da humilhação, dos pregos cravando os seus membros, dos açoites, do sol queimando a sua carne, da coroa de espinhos, da morte afinal. Tamanha dor, com a certeza de vitória no fim, foi para evitar a dor futura da Criação a perecer sob a ira de Seu Pai. Cristo torna-se, então, o maior exemplo, de gente que sofre a dor de hoje, reconhecendo-a, para não sentir mais dor amanhã.

As dores que hoje nós, cristãos, sentimos quando reprimimos os nossos desejos, quando nos sacrificamos em favor do próximo, quando carregamos também a nossa cruz, agredindo o nosso próprio corpo, negando a nós mesmos, objetiva o fim da corrida, onde a Eternidade será passada no Lugar onde não haverá mais dor e muito menos ranger de dantes, mas um grande encontro de povos adorando o Seu Criador para todo o sempre.

Por fim, que apliquemos as lições nos deixadas por Renato Russo, que nos convida a acordar lembrando a unicidade do Caminho, recomeçando diariamente e crendo no Amor que nos inunda mesmo em nossos erros a fim de sermos agentes de transformação vivendo a dor de hoje para evitar as de amanhã. Amém!


* Originalmente publicado no blog #MQD – Mais que Domingo


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