(Pulamos a parte do BK) Eu avisei no primeiro texto que não iremos analisar todas as partes da música. Simplesmente porque nem todas têm relevância a nossa fé. Então continuando as nossas análises chegamos a um poeta que admiro muito chamado Menestrel. O garoto com aparência de uns 20 e poucos anos tem menos de 18. Sim, ele ainda é “de menor”. Agora imagina esse homem com seus 25, a poesia dele estará muito mais madura e rica para os seus ouvintes. E aqui acredito que cabe uma definição sobre o vulgo do artista:

Menestrel (do francês antigo ménestrel; do latim ministerialis, minister), na Idade Média, era o poeta cujo desempenho lírico referia-se a histórias de lugares distantes ou sobre eventos históricos reais ou imaginários. Embora criassem seus próprios contos, muitas vezes memorizavam e declaravam obras de outros. À medida que as cortes foram ficando mais sofisticadas, os menestréis eram substituídos por trovadores, apresentando-se para a população comum, tornando-se assim os divulgadores das obras de outros autores. O menestrel exercia, predominantemente, as funções de músico e cantor. Tudo a ver com o Menestrel de Poetas no Topo né?

Vamos à música: “Sou traficado por mim! / Eu escrevo e o santo desce / Permita-me que a prece / Seja breve como a seca/ seca esse solo fétido / Fértil em gerar mentira”

 

Sobre eu me arrepiar a cada vez que ouço isso: sempre! Quando você estiver ouvindo a música vai perceber que o Menestrel entra quando o BK está terminado a parte dele e talvez você não consiga entender bem que ele canta “sou traficado por mim”. Isso pode significar duas coisas 1) ele leva a sua própria informação ao ouvinte e 2) que ele não vai pela cabeça de ninguém pois ele mesmo faz o que cabe melhor ao seu entender. As duas opções são válidas e isso na nossa reflexão revela uma falha do autor. Olha o que Jesus fala sobre o homem em Lucas:

“O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, do seu mau tesouro tira o mal; pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.” (Lucas 6:45 – Bíblia versão “Almeida Atualizada”)

Jean-Jacques Rousseau disse que “não há nada que esteja menos sob o nosso domínio que o coração, e, longe de podermos comandá-lo, somos forçados a obedecer-lhe.” Pegou a visão? A relação do filósofo, Jesus e Menestrel é clara (e edificante). Rousseau nasceu em Genebra em 28 de Junho de 1712, foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um precursor do romantismo. Ele foi criado pelo pai, Isaac Rousseau, um relojoeiro calvinista, cujo avô fora um huguenote fugido da França. Aos 10 anos teve de afastar-se do pai, mas continuaram mantendo contato (sua mãe morreu após lhe dá a luz). Na adolescência, foi estudar numa rígida escola religiosa, mais tarde desenvolveu uma boa habilidade no campo da música, o que lhe rendeu um convite de Diderot para que escrevesse sobre isso na famosa Enciclopédia. Além disso, obteve sucesso com uma de suas óperas, intitulada “O Adivinho da Vila”. Aos 37 anos, torna-se famoso ao escrever respondendo de forma negativa o Discurso Sobre as Ciências e as Artes, ganhando o prêmio em 1750.

 

Voltando: Tanto Menestrel como Rousseau têm um desejo de conquistar mais coisas e o melhor é não subestimá-los. Entre erros e acertos esses dois personagens conseguem deixar sua marca na história através de sua arte e isso nem sempre acontece através de uma boa história. Menestrel por exemplo escreveu uma poesia basicamente de escárnio e, não muito diferente, Rousseau escreve uma crítica sobre as artes de seu tempo. Ser traficado por si revela-se muito sobre como nós somos. E é possível pontuar 3 coisas a respeito disso:

1) Somos pecadores: e negar isso é transparecer nossos pecados mentindo pra si mesmo; 2) Somos egoístas: não queremos que Deus molde nosso coração e mande em nossas vidas, queremos ser autônomos, sem pedir permissão para ir e vir;

3) Somos carentes: queremos mostrar algo para alguém justamente para preencher um vazio que há em nós.

“Eu escrevo e o santo desce”: eu oro e Deus me escuta. “Permita-me que a prece / Seja breve como a seca seca esse solo fétido / Fértil em gerar mentira”. Olha só: Menestrel está orando! E pode ser loucura minha, mas aqui enxergo o Menestrel fazendo uma ligação com uma parábola de Jesus:

“Ouvi: Eis que o semeador saiu a semear; e aconteceu que, quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. Outra caiu no solo pedregoso, onde não havia muita terra: e logo nasceu, porque não tinha terra profunda; mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque não tinha raiz, secou-se. E outra caiu entre espinhos; e cresceram os espinhos, e a sufocaram; e não deu fruto. Mas outras caíram em boa terra e, vingando e crescendo, davam fruto; e um grão produzia trinta, outro sessenta, e outro cem.” (Marcos 4:3-8)

O solo (coração) de Menestrel é fértil em gerar mentira. E o nosso? No melhor tempo somos verão que anseiam por uma chuva de vez em quando para que a semente germine, mas quando chove demais logo desejamos aquele sol da primavera. Mas somos ótimos em gerar mentiras, nos apegamos com o outono e logo queremos o verão novamente. Afinal, não é a estação certa que estamos procurando, é satisfazer o ego que queremos. E sabe qual é o único lugar que não conseguimos usar máscaras? Na oração. É por isso que é tão difícil orar. De joelhos mostramos quem somos de fato, pois estamos diante do Criador, nosso Pai que nos conhece muito antes de nascermos. Impossível não ser verdadeiro diante dele!

(Mais adiante) “Cada palavra falada não volta só vira o jogo / É poetas no topo!”

Seguindo minha linha de raciocínio da oração de Menestrel, chegamos a uma parte intrigante: o autor toma cuidado com as palavras e sabe que as mesmas em si não tem poder, elas mudam seus significados conforme o momento. Quer um exemplo? Falamos que amamos a Deus no culto de domingo. Ok! Na segunda falamos que amamos comer x-tudo. Certo! Na terça falamos que amamos Netflix. Hanram! Na quarta falamos que amamos a seleção brasileira. Massa! Na quinta falamos que amamos a namorada. Ownt! Na sexta falamos que amamos a sexta! Uhu! No sábado falamos que amamos nossas mães. Percebeu que o mesmo “amamos” a Deus é o “amamos” x-tudo e seleção brasileira? Colocamos duas coisas de graus de importâncias extremamente diferentes em uma só palavra expressando sentimentos semelhantes. Isso deveria nos fazer refletir a forma que vivemos nossas vidas diante de Deus. Jesus tem um recado para pessoas como nós que dizemos amar a Deus, mas na verdade estamos com o coração corrompido pensando apenas em nós mesmos: “Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim” (Mt 15:8)

Eu penso que, refletir Cristo vai muito além de pregar o evangelho, é compreender que a nossa identidade está nEle. Ele deve ser o centro de nossas vidas, nele deve estar nosso caráter de vida, a glória dele que deve falar mais alto em nós. Menestrel, mais a frente, nos dará um conselho: “Fez o que queria agora faz o mais difícil” E sabe o que é mais difícil: renunciar a si mesmo. A própria oração é uma renúncia de si. O ego que grita para ser alimentado com coisas levianas, limitadas e que correspondem somente ao que é eterno, é o mesmo que diz “não ore”. A cruz que devemos carregar é muito mais pesada que os sacrifícios que fazemos, a pregação que pregamos, as coisas que abrimos mão. Cruz tem a ver com vida e vida é muito mais difícil de renunciar do que tempo e dedicação.

Menestrel vai encerrar sua participação na cypher dizendo “agora a prioridade é redescobrir minha função”. Rousseau disse: “quanto mais do mundo vi, menos pude moldar-me à sua maneira” e Menestrel entendeu isso, pois não quer mais viver segundo aquilo que acha certo – lembra do início da canção quando ele canta que era traficado por ele? – e sim conforme aquilo que de fato é sua função. E qual a nossa como cristão? Ser sal e luz. Enquanto não vivermos sob este princípio, estaremos errando e vivendo uma vida que não reflete o seu criador. Minha oração? É para que tenhamos mais vontade se humilhar do que inventar cópias de nós mesmos. Até a próxima segunda!

 

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