É chegada a Páscoa, aquele período do ano em que os supermercados começam a receber os famosos ovos de chocolate e a TV é inundada com propagandas coerentes com a festividade, etc. Nesse ínterim todo, os cristãos começam a reivindicar o caráter religioso da festa em detrimento da mercantilização da mesma.

Uma coisa é certa e não podemos fugir da realidade: sim, a páscoa é uma festa religiosa, cristã, mais especificadamente. A origem da comemoração remonta ao período em que os hebreus eram escravos do Egito, um pouco antes de sua espetacular libertação, na décima praga. Na ocasião, Deus havia dito a Moisés que mataria todos os primogênitos egípcios por conta da obstinação faraônica. Para distinguir os filhos dos hebreus e dos egípcios, Deus instruiu o Seu povo para pintar a porta de suas casas com o sangue de cordeiro. Tal cordeiro deveria ser abatido e divido entre algumas pessoas. Tratava-se da instituição da Páscoa: uma festa que servia para relembrar continuamente os hebreus do fim da servidão ao Egito. Até hoje os judeus comemoram a páscoa com esse mesmo intuito.

Quando o Verbo finalmente vira carne, antes de Sua crucificação, Ele reúne os doze apóstolos – inclusive o traidor Judas – e reinstitui a Páscoa com a tão famosa Última Ceia: uma solenidade a ser realizada continuamente até a Segunda Vinda com vinho e pão a fim de lembrar a expiação definitiva. De lá pra cá, a Páscoa, para os cristãos, possui tal significado e, ainda, sob o calendário católico, os cristãos relembram o preço da salvação, o horror da morte do Filho do Homem e também de Sua vitória sobre a morte.

Finalmente chegamos a contemporaneidade. Atualmente, quando chega a Páscoa, é sempre a mesma coisa: de um lado temos as propagandas e os mercados cheios das guloseimas de chocolate e do outro, os crentes vociferando que o verdadeiro sentido da páscoa está sendo distorcido pela nossa cultura, ou seja: estão trocando o Cordeiro (Jo. 01:29) pelo Coelho.

Bom, talvez a acusação seja verdadeira, afinal de contas: tudo bem a contextualização da data, mas as pessoas deveriam conhecer mais a sua raiz. Entretanto, será mesmo que proibições e reclamações resolvem o problema, principalmente na tarefa de redenção ou, como chama Heber Campos Júnior, de reforma? Creio que o buraco seja muito mais lá em baixo… No presente texto eu tratarei a questão por partes da seguinte maneira:

  1. O caráter vão das proibições do tipo “crente não pode comer ovo de páscoa”;
  2. A culpabilidade cristã em a cultura está trocando o Cordeiro pelo Coelho;
  3. As tentativas sociais de suprimir a nossa herança cristã da sociedade.

Vamos lá?

01 – O caráter vão das proibições do tipo “crente não pode comer ovo de páscoa”

Existem muitos cristãos que acreditam que, pelo fato de a sociedade está se esquecendo a origem da páscoa, é equivocado o cristão participar das práticas que constituem tal redefinição, ou seja: se você é crente não pode comprar os deliciosos ovos de chocolate de nosso tempo, não pode comer bacalhau na semana santa, não pode participar de amigos ocultos com os ovos de chocolate, os seus filhos não podem se fantasiar de coelhinhos na escola , blá, blá, blá… Será mesmo que não pode?

Vamos por partes. Primeiro, qual é a maldição sobre os ovos de chocolate? Eles só são doces de chocolate em formato de ovo que, algumas vezes, acompanha algum tipo de brinde e está envolto em uma embalagem brilhosa. O que há de errado em consumi-los? E comer eles em qualquer período se não a Páscoa? É pecado também? Sendo assim, sim: é lícito ao cristão comprar e saborear os ovos de páscoa, não é errado participar de trocar de ovos, nem mesmo na igreja, e, não, você não vai o Inferno e muito menos perder a salvação se consumir os tais produtos. Os ovos de páscoa não são maus em si mesmo e, portanto, fique à vontade e lembre-se sempre do conselho paulino: “Nós sabemos muito bem que há um só Deus, o Pai, a quem pertencem todas as coisas, e que nos fez para sermos dele; e também um só Senhor, Jesus Cristo, que criou igualmente todas as coisas e nos dá a vida” (1Co. 08:06).

Segundo: se você é crente e tem filhos, eles não podem participar de eventos da escola que promover a comemoração da versão não cristã da páscoa. “Pode isso, Arnaldo?” Vamos lá: mais uma vez não é equivocado permitir que nossos filhos sejam caracterizados como coelhos na escola, recebam os doces e tals. Se você, pai e mãe e ensina os seus filhos nos Retos Caminhos, qual a chance do seu filho deixar-se enganar pela mentira de nosso tempo se ele mesmo já conhece a verdade, uma vez que o ensino das verdade cristãs no lar são tão poderosas que impedem qualquer desvio (Pv. 22:06)? E outra coisa: se o que você ensino aos seus filhos no lar é tão frágil e superficial que qualquer discurso de terceiros, no caso, aqui, a escola, pode desconstruir, que tipo de ensino é esse que você está dando aos seus filhos (se você está realmente ensinando)? Eu é que não queria ser um filho seu… Resumindo: não, não é errado as crianças entrarem na onda dos coelhinhos, desde que elas estejam completamente cientes de que páscoa não é só isso e saiba realizar as devidas distinções e essa responsabilidade cabe unicamente aos pais!

“Quando o teu filho amanhã te perguntar: “que é isso?” Responder-lhe-ás: “O Senhor com mão forte nos tirou da casa da servidão””

Êxodo 13:14

Finalmente quero tratar de outra coisa: a abstinência de carne na semana santa. Realmente não há qualquer recomendação bíblica embase tal prática, portanto o consumo da mesma é liberado nos dias da Páscoa, assim , como, no caso dos ovos de chocolate, em qualquer outro dia. Além do mais, é uma baita hipocrisia não comer carne na semana santa por que é “pecado” e continuar fazendo bobagem o ano inteiro. Entretanto, sinta-se livre para não comer carne nesses dias, pois da mesma maneira que o consumo de carne é lícito em qualquer dia do ano, exatamente a mesma coisa se aplica com as carnes brancas ou uma dieta vegana. Escolha o seu cardápio de maneira que lhe traga paz e glorifique a Deus e não os seres humanos. Parodiando Paulo: quem come carne na páscoa que coma para o Senhor e que não come que não coma para o Senhor também. No mais, siga as orientações que estão escritas em 1Co. 08 e não esqueça de amar e respeitar também o seu próximo, não descriminando aquele que come e não rebaixando quem não come, beleza?

02 – A culpabilidade cristã em a cultura está trocando o Cordeiro pelo Coelho

Como eu comentei aqui no início do texto, enquanto de um lado temos uma cultura e indivíduos que claramente parece que esqueceram – ou não querem lembrar – a real origem, o verdadeiro sentido da Páscoa; do outro lado temos os cristãos reclamando do fato, mas volto ao meu questionamento primeiro: será que reclamar por si só resolve o problema? É mais do que evidente que não.

Realmente, precisamos reconhecer que a Páscoa não se resume aos doces que tanto amamos e em tal ponto a crítica religiosa acerta em cheio, mas como eu afirmei, apenas reclamar não é solução. Será que a razão pelas quais as pessoas estão trocando o Cordeiro pelo Coelho é por que os que conhecem Aquele não estão O anunciando como deveriam? 

 

“Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?”


Romanos 10:13,14

Ora, creio que talvez os cristãos tenham parcela de culpa naquilo que eles mesmos criticam. Se em nosso tempo houvesse uma intervenção cristã na cultura grandiosa, seja na evangelização, no testemunho, na participação, talvez as pessoas priorizariam o Cordeiro em detrimento do Coelho. Ora, de que adianta nos irarmos nos nossos púlpitos, dizendo que o verdadeiro sentido da Páscoa está sendo esquecido, se nós pouco nos movemos para lembrar as pessoas dele? Então, sim, para que, nós, cristãos, temos uma grande parcela de culpa na geração das circunstâncias negativas que constatamos.

O Ocidente inteiro foi formado pela perspectiva cristã: nossa moralidade, nossa educação, cultura, etc. No passado tivemos grandes pessoas que fizeram com que o Cristianismo fosse visível e totalmente digno de crédito. Ao contrário, atualmente, estamos dando passos para trás, nos apegando a uma cosmovisão dualista que só sabe criticar e não sabe intervir como deveria. Eu não estou falando de Pragmatismo, estou falando de ações corretas que sejam frutos de reflexões válidas.

Concluindo a presente parte eu reafirmo: se fossemos mais ágeis na propagação da Fé, as pessoas comeriam os ovos, mas jamais esqueceriam de que a Páscoa de verdade foi formada a preço de sangue e assim, não precisaríamos formar discursos legalistas e de domínio que só revelam mais do mesmo de nossa ignorância e não pensa naquilo que realmente é necessário na atualidade.

03 – As tentativas sociais de suprimir a nossa herança cristã da sociedade.

Retomando aquilo que eu disse ainda pouco, o sangue está sendo trocando pelo chocolate e parte da culpa é dos próprios cristãos. Contudo, é preciso afirmar que a redefinição do conceito da Páscoa na verdade faz parte de algo que, infelizmente, é bastante comum: são exatamente as tentativas de apagar as nossas origens e bases cristãs.

A Páscoa é de origem cristã, mas tal verdade hoje em dia é pouco lembrada. O matrimônio tradicional que possui raiz cristã está sob constante ataque sob uma visão progressista pouco refletida e bastante pragmática. É defendido que todas as religiosas possuem o livre direito de manifestação pública, mas isso não vale para os cristãos. Pouco é citado que nossas grandes universidades possuem origem cristã! Não se lembra mais da importância social, histórica, cultural e econômica da Reforma Protestante! Os grandes intelectuais cristãos já não fazem mais parte de nossos grupos de estudo… Esses são alguns exemplos que há em um plano em curso para apagar nossas origens, assim como houve quando Nabucodonosor cativou Israel. Infelizmente esse é o contexto em que vivemos. Tal realidade deve fazer os cristãos chorarem e orarem. Deve levá-los à reflexão, ao estudo para podermos darmos a razão de nossa Esperança quando assim nos for solicitado (1 Pedro 3:15).

Desta forma, já não cabe mais compartimentalizarmos a vida! Precisamos estar em todos os lugares, intervir culturalmente com a Esperança. Para isto, devemos estar bem armados. Nossas igrejas precisam discutir mais a cultura de nosso tempo sem raiva, parcialidade e fazendo uso de uma cosmovisão limitada, mas estarmos prontos a julgar todos os espíritos à luz da Escritura (1Jo. 04:01). Que Deus nos ajude em tal tarefa…

CONCLUSÃO

No presente texto eu busquei refletir nossas práticas e visões sobre a Páscoa contemporânea, relembrando sua história e sentido cristão, mas que isso não nos impedir de fazer parte daquilo que julgamos secular. Defendi que nossas acusações são vãs se não fazermos nada de verdade para resolver o problema e que tais ações devem ser frutos de uma exaustiva prática intelectual a fim de não cairmos em Pragmatismo, pois em um tempo onde percebe-se claramente o levantar de tentativas para a apagar a nossa história cristã, faz-se altamente necessários que os crentes estão devidamente prontos para afirmar a legitimidade da fé, a sua suficiência, intervir nas esferas culturas com ela e, assim, fazê-la digna de confiança, como ocorreu no passado. Por fim, voltando à Pascoa, eu deixo uma frase de Cristiano Fiori Zioli que nos provoca a comemorarmos a Páscoa sem dualismos para a glória de Deus. Boa Páscoa!

“Em Cristo, podemos comer chocolate, brincar com coelhos, trocar presentes de amigo secreto, ter bacalhau no almoço e tudo isso celebrando sua ressurreição!”

“Para os puros, todas as coisas são puras; mas para os impuros e descrentes, nada é puro. De fato, tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas.”
Tito 1:15

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