Já faz algum tempo que o rap não faz parte de meu repertório musical. Não se trata de reduzir o estilo musical, acontece que a estética musical do de tal gênero musical não me atrai muito. Entretanto, eu preciso fazer uma grande exceção para a canção “Não existe amor em SP” do Criolo, que, na verdade, é a única música do cantor que eu conheço. Como eu já afirmei anteriormente, não ouço rap e como o músico citado pertence a esse gênero, eu o evitava.  Isso mudou em 2016, quando vi uma série nacional excelente, a “1 contra todos“, que possuía como trilha de abertura a referida canção. Quando a primeira temporada encerrou eu fui atrás do rap e me surpreendi com o que vi. De fato, uma grande obra, rica em letra e musicalmente. “Não existe amor em SP” tem muito a nos dizer realmente.

A letra faz uma crítica feroz à insensibilidade humana ante o repetitivo e também estressante cotidiano urbano. Para isso Criolo pega a capital brasileira mais urbana de todas: São Paulo. E já começa criticando: “Não existe amor em SP”. Acontece que a letra do rap acaba por denunciar as nossas inúmeras falhas humanas, ou seja: nossos pecados. Partindo disso eu trago uma análise bastante subjetiva da letra do rap trazendo à tona que o mesmo nos traz a realidade a qual teimamos erroneamente em não querer ver.

“Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce.”

Após o eu lírico do poema começa a acusar SP de uma suposta falta de amor, ele segue descrevendo a cidade como ela sendo um verdadeiro “labirinto místico“. O que é um labirinto? Um lugar sem sentido. Com entrada, mas sem saída (na verdade, quando estamos nele, nem sabemos mais qual é a entrada). Um lugar confuso, desesperador, angustiante. Para o eu lírico do rap, São Paulo é muito mais que um labirinto, ela é mística, portanto, cheia de mistérios, tomada pelo sobrenatural, pelo desconhecido e, muitas vezes, pela morbidez. Nesse grande labirinto, os grafites gritam (ou gritavam?) de uma maneira indescritível e se quiséssemos escrever a alguém sobre SP, não conseguiríamos nem mesmo no mais belo e doce postal, por mais bonita que a frase fosse, pois a SP é mística, por isso, qualquer aparência doce deve ser vista com precaução. Eis o cenário incerto que o eu lírico nos apresenta, o cenário de uma SP em que não mais amor, o que esperar dela, então?

“São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você!”

Para o eu lírico, São Paulo é comparável a um buquê, mas o que é um buquê? Por vezes nós vemos qual belo um buquê pode ser, entretanto esquecemos do que realmente é: um emaranhando de flores que, por não seres mais nutridas, são mortas. Buquês nada mais são do que um emaranhado sem vida e, incrivelmente, gostamos disso. São Paulo é assim, à primeira vista, bela, surpreendente, mas como um buquê é morta. Por isso, tome cuidado com São Paulo, tome cuidado com os buquês, pois eles nada mais são do que “flores mortas num lindo arranjo (…) feito pra você“. Mais uma vez temos a descrição de um ambiente, uma cidade, sitiada, pela falta de amor, uma falta que traz a morte, mas ela soando como algo bom.

Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu
!”

No rap, o eu lírico continua vagando por São Paulo e constata que em SP os bares estão lotados de almas vazias que estão buscando o errado para se preencherem. Nesse ambiente o que vibra e anseia todos é a ganância, o desejo de ter como um fim em si mesmo, o ter irracional, o ter que nos faz cego para o próximo. O que excita é a vaidade, o que dá prazer é a sensualidade, a beleza vazia que objetiva o próximo. A vaidade quem há prostituta desesperada, nos bens desnecessários e fúteis, na aparência vazia, na ostentação desnecessária. Eis o que procuram as almas vazias.

O quadro não é um dos melhores, as pessoas não se importam mais uma com as outras, pois falta amor. A ganância com o fim da vaidade é o que mobiliza as pessoas. Os bares lucram com a angústia humana e ninguém consegue perceber que estão sob uma falsa beleza, a beleza dos buquês com flores sem vida e, por conta de tudo isso, infelizmente, ninguém vai para o céu! Ninguém vai para o céu, pois parece que não há arrependimento, mas há prazer na depravação, no pecado no erro. Essa SP é constituída de todos aqueles que não são dignos do reino dos céus: os imorais, os idólatras, os adúlteros, os libidinosos, os ladrões, os avarentos, os alcoólatras, os caluniadores, os trapaceiros, os cães, os feiticeiros, os assassinos (1Co. 06:09-11/Apc. 22:14-15). O que rap nos revela é a triste realidade de nosso pecado.

“Estando cheios de toda a iniqüidade, fornicação, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade;
Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães;
Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia.”
Romanos 1:29-31

Ouvi alguém dizer certa vez que a constatação do mal é inútil se não há esperança de uma remissão e, graças a Deus, entra a Redenção: a redenção de um Deus criador que, se quisesse, poderia ser indiferente ao pecado humano, pois afinal de contas, fomos nós mesmos que preferíamos assim e, se Ele quisesse, poderia nos condenar por nossas injustiças e se manter indiferente às nossas transgressões, e Ele não seria, de forma alguma, injusto, se assim quisesse. Mas Ele nega o Seu filho e é Ele, e somente Ele, quem recebe a morte merecida a nós e nos justifica, chamando de inocente todo aquele que crer.

A SP do eu lírico de Criolo pode ser a cidade na qual você, caro leitor(a), está. Será que há amor onde você vive? Será que não existem almas vazias molhadas pelo tão inútil álcool, excitadas pela vaidade e vibrante pela ganância desnorteante? O nosso tempo é marcado por grande decadência e falta de sentido, por um niilismo que nos mata, mas há Amor, há esperança. Que os crentes possam ser os anunciantes do Amor e da Esperança, seja em SP ou em qualquer lugar em que há almas desesperadas e sem sentido na vida.

São Paulo à noite. Foto: Leonardo Dias

Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus
.”

A pensadora cristã Nancy Pearcey afirma que a obra de arte cristã precisa ser construída tendo base os três elementos da cosmovisão bíblica: criação, queda e redenção. Mesmo não sendo cristão, parece que Criolo compõe “Não existe amor em SP” tendo base esses três elementos, pois na letra da canção há uma constatação inicial de criação, uma queda e, no final, uma ideia de redenção. Criolo foi agraciado pela Graça Comum de Deus e solta algumas verdades que trazem esperança à falida SP.

O eu lírico segue afirmando algo que pode soar meio estranho (soou para mim): “Não precisa morrer pra ver Deus” e, realmente, não, não precisa ver Deus pra ver Deus. Olha só o que dizem os textos bíblicos abaixo:

“Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis.”
Romanos 1:19,20

Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
Salmos 19:1

Olha só: não precisamos morrer, sair desse mundo, para vermos Deus e constatarmos a Sua existência, pois Deus mostra que Ele é real através daquilo que Ele mesmo fez. Deus e seus atributos são explícitos na Criação, logo Ele pode ser percebido e visto em tudo de bom que está ao nosso redor. É como a própria letra da música diz: “Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquinaMe dê um gole de vida” (que belíssima oração!). Deus não é tão inatingível que não possamos deixar de acompanhá-lo por intermédio de Sua revelação.

Parece que foi John Piper (ou Rusell Shed) quem disse que, para o crente, a morte é o momento de voltar para casa e isso está correto. A morte para o cristão é o reencontro de servo e Senhor. Entretanto, a morte também é a consequência de nosso pecado (Rm. 06:23) e, portanto, não é positiva e feliz. A morte sempre traz tristeza. Como o crente deve viver, então? Ele deve saber, sim, que a morte é o reencontro com o seu Senhor, mas existe uma data para isso, estipulada pelo próprio Deus, uma data inalterável e enquanto essa data não chega, devemos nos alegrar com a tocável criação de Deus e sermos sensíveis para O encontrarmos em nosso meio e, então, não, “Não precisa morrer pra ver Deus“. E é exatamente por podermos “vermos Deus” em vida é que somos totalmente imperdoáveis se não nos rendermos plenamente a Ele (Rm. 01:19-32).

FotorCreated

Acredito que só uma equívoco na letra da canção inteira. É exatamente a parte: “Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você“. Bom, talvez precisamos sofrer vez ou outra pra saber o que é melhor. Acontece que, por vezes, somos tão estúpidos que precisamos tomar na cara pra ver qual é o caminho certo. Além do mais, é só ler Hebreus 12 pra ver que o próprio Deus disciplina os Seus filhos, o que revela uma relação entre pai e filho e revela o amor de Deus para os que O amam de verdade, pois é exatamente por Deus amar os Seus filhos que Ele não os deixaria perecer em seus próprios erros, daí a disciplina, o sofrimento que, usando as palavras de John Orteberg, nos leva para a melhor versão de nos mesmos.

“Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados.”
Hebreus 12:11

Bom, eu termino aqui meu comentário sobre a “Não existe amor em SP” do rapper Criolo na esperança de que você tenha tomado um choque de realidade com o pecado que está ao nosso redor que a letra relata, mas tenha também lembrado do amor do Criador e que tamanho amor também o leve a amar de verdade o mais rápido possível. Deus o abençoe!

Soli Deo Gloria!


BÔNUS: deixo dos incríveis vídeos da Glocal: o primeiro é um genial e belo cover da canção aqui analisada seguido do denunciante poema “Cidade dos homens“. O segundo vídeo é uma curta exposição de Jonas Madureira sobre Jesus, Nietzsche e Dostoiévski que corrobora com as reflexões acima.

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