O novo alvo de críticas por parte dos evangélicos é exatamente uma das personagens de “A força do querer“, o novo folhetim global das nove. Trata-se de Ivana, uma garota que não se identifica mais com quem é e aparente ser transexual. Não demorou para quer posts inflamados nas redes sociais surgissem e para que, de diversas maneiras, crentes estivessem criticando a nova novela da Globo. Bom. uma crítica cultural cultural cristã nunca se fez tão necessária, entretanto, pra fazer crítica cultural é preciso conhecer de cultura e é aí que estão o problema.

Gregório de Mattos foi uma importante escritor brasileiro. De tradição barroca, a obra poética de Gregório baseia-se por críticas de escárnio de sua realidade, além de obras religiosas. Em um dos seus mais famosos poemas, Gregório escreve uma descrição nada animadora da Bahia. Leia um trecho:

EPIGRAMA (Gregório de Mattos)

Que falta nesta cidade? Verdade.
Que mais por sua desonra? Honra.
Falta mais que se lhe ponha? Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

(…)

Pois é, no poema, o eu lírico não está muito satisfeito com a realidade que o cerca. Segundo ele, faltam verdade e honra na cidade. A pergunta que é feito por ele no primeiro verso é bastante interessante e revela-se também bastante oportuna para o prosseguimento da provocação que quero propor aqui: “Que falta nesta cidade? Verdade.” Segundo o eu lírico falta verdade na cidade e, como se pode notar, isso o incomoda e também deve nos incomodar, pois, afinal de contas: todo ser humano necessita de uma verdade e de um sentido na vida, mesmo que tal verdade e tal sentido seja a defesa da ausência de verdade e sentido.

A presença ou a ausência de verdade é um fator determinante para o bem estar humano e irá dirigir toda a vida. Na história da civilização podemos encontrar algumas formas de pensar que não se conformaram com a existência de padrões, limites, de Verdade e, por isso, tentaram fugir dela. O exemplo mais famoso é Friedrich Nietzsche e a sua cosmovisão niilista e anaxiológica. Podemos afirmar que o seu pensamento ecoa até hoje. Prova disso é a super exaltação do relativismo e da liberdade de nosso tempo. Esses dois elementos são levados às últimas consequências de maneira irracionais, de forma que nos tem levado a ver as maiores bizarrices (im)possíveis, coisas que nossos pais e e avôs nunca imaginaram ver. Mas mesma que tentamos fugir disso, tal realidade bate à nossa parte diariamente e está presente em peças artísticas que menos imaginamos e, pior, muitas vezes torna a nossa mente cativa.

Voltando à necessidade da crítica cultural cristã a qual eu me referi no começo: é necessário conhecer o tempo em que vivemos. Francis Schaeffer, importante apologista e intelectual cristão do século XX, já nos alertava no passado que os cristãos não devem ver coisas como a desconfiguração familiar, a defesa da prática abortiva e coisas do tipo como fatos isolados, mas sim como consequências de algo muito grave: a falta de uma mentalidade resistente que preencha nossos vazios. Assim, a coisa muda de figura: é insuficiente só apontar o erro e adotarmos um escapismo dualista inútil e que apenas contribui para o secularismo, faz-se necessário ações precisas.

Nancy Pearcey, escritora cristã norte americana, afirma que as obras de arte e produtos de nosso tempo não podem ser visto de maneira ingênua, imaginando uma suposta neutralidade, isso não é possível. Para ela, toda obra artística está carregada da forma que seu autor enxerga a realidade. Schaeffer ainda defende que as ideias que hoje vamos falar e nos influenciar tanto nascem sempre nos altos círculos filosóficos e, antes de chegaram à igreja, se hospedam na cultura e arte populares, ou seja: não tem como fugir das cosmovisões que regem a maioria, das cosmovisões relativistas que tanto bagunçam nossa mente e, por vezes, mesmo de maneira inconsciente (como toda cosmovisão faz), nos tornam adeptos delas.

Onde eu quero chegar com tanta informação, você deve estar se perguntando. Sabe, olhamos ao nosso redor e ora vemos uma arte ruim, ora vemos a arte a serviço de militância ideológica. Percebemos ainda uma desvalorização de valores, o desejo da desconstrução daquilo que é tão óbvio, necessário e que demorou tanto tempo para se firmar. Enxergamos relativização, dualismo, as pessoas parecem estar desesperadas, por vezes recorrem a ausência de sentido de suas existências para dar sentido às suas existências. Tudo isso está errado e tem se manifestado no que consumimos. Como os cristãos podem responder aos novos desafios? Será gritando ignorantemente os males que estão ao nosso redor? Será criando leis para satisfazer os nossos interesses? Será construirmos um muro paradoxal que nos afasta do mundo sem nos afastar dele? Será darmos mãos ao relativismo vigente? Bom, a solução é única, mas pode sangrar os ouvidos de muita gente: precisamos nos envolver culturalmente o quanto antes! Sim, é disso que precisamos, é disso que o mundo precisa.

A mesma pergunta que Gregório de Mattos fez em seu poema, nós podemos refazer: o que falta na cidade? Verdade! Agora, pense: quem são aqueles que possuem o dever de espalhar a Verdade? Exatamente: aqueles que seguem a própria Verdade (Jo. 14:06)! E como fazermos isso? Primeiro: abrir as nossas mentes e ESTUDAR! Sim, estudar, estudar cultura, estudar Bíblia, estudar Cristianismo, estudar a contemporaneidade e fazer isso sem o dualismo bobo que tem nos afligido. Segundo: se as obras de nosso tempo estão mostrando as cosmovisões vigente de nosso tempo, os cristãos precisam fazer o mesmo: precisam mostrar ao mundo a mensagem que tem ao mundo, mas calma lá; com isso eu não estou me referindo às famosas imitações gospel. Eu não estou falando de funk gospel, cinema gospel, balada gospel, novela gospel, romance, não sei o quê gospel. Eu estou falando é de COISA BOA! Cadê os crentes produzindo bons filmes? Filmes que todas as pessoas pessoas possam ver, filmes fora da caixinha do gospel, filmes que repercutam tanto quanto os filmes dos incrédulos. Rodolfo Amorin, intelectual cristão brasileiro, denuncia o nosso pecado ao dizer que as novelas da Globo são ruins como são exatamente porque está faltando crentes sérios para escrevê-las e atuar nelas. Fazendo com que essas produções tragam nela os Valores eternos. Estão dizendo por aí que as roupas que usamos estão passando por um processo de afeminização. Bom, se isso verdade é, então onde estão os estilistas cristãos para confeccionarem boas roupas? Estão acusando os professores de serem doutrinadores nas escolas, mas cadê os professores cristãos que ensinem com excelência, que sejam reconhecidos por seus trabalhos e por sua maestria na tarefa de ensinar? Onde estão economistas e juristas cristãos brasileiros dizendo o que precisa ser dito com precisão e também de maneira certeira? A música popular pode estar ruim, mas onde os cristãos para melhorá-la? Ah, esqueci, estão compondo canções feias e sem qualquer respaldo bíblico. Ano passado, a Oboticário veiculou uma propaganda que foi fortemente acusada de relativizar o casamento e romantizar o divórcio. Isso não aconteceria se existissem publicitários cristãos na Oboticário…

Em se tratando de política, é vergonhoso termos uma bancada com uma visão tão limitada de algo muito mais sério e complexo do que eles imaginam. Em se tratando de arte, Schaeffer nos dizia: “o cristão é alguém cuja imaginação deve voar além das estrelas”. Pena, que muitos crentes não conseguem enxergar isso e tratam a tarefa artística com uma visão utilitarista, altamente pragmática, como algo que não é necessário e, infelizmente de forma tão limitada e feia.

Nunca vamos mudar o quadro lastimável em que estamos enquanto sermos dualistas. Nunca haverá uma real contribuição cristã verdadeiramente significante e relevante para a arte e cultura enquanto pensarmos que as carreiras de nossos jovens só são dignas de louvor se estiverem a serviço da igreja. Nunca seremos sal e luz se nunca reconhecermos o trabalho de nossas irmãos como algo sagrado e que glorifique a Deus.

Respondendo a pergunta do título do texto, de quem é a culpa pelo atual nível das produções globais? De quem é a culpa do caminhar em largos passos da secularização e do relativismo que vemos presente nos filmes, séries e músicas que amamos? É NOSSA! É dos crentes que separaram um muro legalista entre o palpável e o transcendente, sem perceber que com isso estão repetindo o erro dos gnósticos e negando que a supremacia de Cristo sobre todas as esferas tem tudo a ver com TUDO – TUDO! – o que fazemos. Quando vamos mudar e quando a culpa vai sair de nós?

Em preocupação,

Natanael Costa

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