INTRODUÇÃO

Pretendo iniciar hoje aqui no blog Outro Ponto uma série de três textos onde abordarei um pouco acerca do relacionamento do cristão com as expressões artísticas, sejam elas quais forem, de origem cristã ou não.

A minha justificativa para iniciar a presente série é a minha percepção e também preocupação em observar que, por não poucas vezes, infelizmente, parece que os cristãos cometem alguns erros em tal relacionamento. Entre eles eu posso citar alguns tais como a desvalorização do fazer artístico assim como o seu consumo, uma visão pragmática e também utilitarista da arte, uma “glutonaria artística” sem reter aquilo que for bom, entre outros problemas.

No primeiro texto eu tratarei a Arte como ela sendo originada a partir do próprio Deus, ou seja: a arte como uma criação divina e, portanto, passível da atenção cristã. No segundo texto, irei propor algumas diretrizes para direcionar a presença artística na vida cristã e, finalmente, no último texto, eu apresentarei as razões pelas quais cristãos são tentados a não dialogarem com o fazer artístico, o desmerecendo, o reduzido e o tratando como inútil e não importante. Para concluir eu apresentarei algumas soluções para combater tal problema.

REFLEXÕES SOBRE A ARTE E SEU CONCEITO

A sociedade contemporânea em que vivemos revela-se, entre outras coisas, bastante utilitarista e também pragmática. Utilitarista, pois crê que algumas práticas são só lícitas se elas não forem um fim em si mesmas, ou seja: possuírem determinada finalidade (exemplo: parece que estudar só é visto como positivo se ele for visto como um caminho para a ascensão social); pragmática, por ser extremamente ativista: o ser humano não pode ficar parado e suas atividades precisam ser enérgicas de modo a atingir determinadas metas o mais rápido possível e qualquer ação não prática é vista com reprovação. Chersterton, em seu texto “Procura-se homens não práticos” revela-nos tal problema.

Infelizmente, parece que essas visões de vida têm chegado a nossas igrejas. Assim, aqueles que se propõem ao muito estudar, por exemplo, são considerados tolos, pois estão agindo pouco. As pessoas que são ativas em suas carreiras profissionais e/ou acadêmicas “seculares” são vistos como sendo “menos espirituais” que o pastor, o “levita”, o diácono, etc. Também a nossa visão a respeito de Arte também tem sido violentamente influenciada por tais cosmovisões. Talvez isso se dê pela total bagunça que temos visto em torno da arte. Talvez também isso ocorra pela visão negativa e estereótipa dos artistas. Talvez seja pela ideia de que a Arte e seus estudos sejam algo difícil demais e que não possui muito valor, por tanto a nossa dedicação a ela deve ser a menor possível, pois “existem outras coisas bem mais importantes para se preocupar”, dizem eles.

Entretanto, parece que a Arte só é vista com útil e necessária se ela funcionar como uma espécie de “isca evangelística”, ou seja, para os alguns crentes, só faz sentido falar em Arte se ela estiver a serviço de algo, no caso da fé, e ela só é válida se funcionar com panfletagem do Cristianismo. Como será perceber daqui a pouco, a Arte possui um valor intrínseco que a legitima sem haver a necessidade de tratá-la a parti de uma perspectiva meramente pragmática e que esse valor está intimamente relacionado com a Divindade. Um pensador que se propõe a pensar assim é Hans Roomaaker, um especialista em arte cristão fortemente influenciado pela ideia da Soberania das Esferas oriundas do pensamento neocalvinista holandês do século XX (Kuyper-Dooyeweerd).

O nosso pecado ao tratar a Arte por esse víeis é não aplicar a doutrina bíblica da soberania exaustiva de Deus em todas as esferas da humanidade e, portanto, não buscar as aplicações práticas de tal doutrina. Pensando dessa maneira, sim: Deus tem tudo a ver com Arte. Mas pra falarmos de Arte, primeiramente precisamos defini-la.

Um intelectual que pode nos ajudar a tal reflexão é o inglês Roger Scruton. De tradição conservadora, o filósofo empreende boa parte de seus esforços em estudar Estética e Arte. De seus estudos surgiu um obra intitulada “Beleza”, publicada no Brasil pela editora É Realizações e um documentário – “Por quê a Beleza importa?” – da BBC.

Para Scruton, não existe qualquer consideração melhor para a Arte se não for a realização estética, a manifestação da beleza. Assim, para ele, a Arte necessita buscar obrigatoriamente a Beleza, um nível estético elevado. Para ele:

“Em qualquer época entre 1750 e 1930, se você pedisse às pessoas cultas para descrever o objetivo da poesia, da arte ou da música, elas teriam respondido: a Beleza. E se você perguntasse pela razão disso, você aprenderia que a Beleza é um valor, tão importante quanto a Verdade e o Bem.

Depois, no século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, cada vez mais, concentrou-se em perturbar e em quebrar tabus morais. Não era a beleza, mas a originalidade, conseguida por qualquer meio e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.

Não apenas a arte fez um culto à feiura; a arquitetura também se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso ambiente físico que se tornou feio. Nossa linguagem, nossa música e nossas maneiras estão cada vez mais rudes, egoístas e ofensivas; como se a beleza e o bom gosto não tivessem nenhum lugar real em nossas vidas. […]”

Roger Scruton ainda defende “a beleza importa, não apenas como algo subjetivo, “mas como uma necessidade universal dos seres humanos”. Assim, devemos pensar a Arte da seguinte maneira: a busca e a manifestação da virtude valorosa da Beleza. Todo forma de Arte necessita obrigatoriamente ser bela para ser considerada como tal. Como já deu pra perceber Scruton supervaloriza o Belo classificando-a como ela sendo integralmente indispensável para o bem estar humano, pois todos os seres humanos buscam pela beleza e precisam dela para a sua satisfação. Como ele mesmo diz: “a Beleza é um valor tão importante quanto a Verdade e o Bem. Fazendo essas reflexões é impossível não pensar no tão conhecido conselho que o apóstolo Paulo dá aos filipenses:

“Irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável de verdade, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e também se algum louvor existe, que seja exatamente isso o que ocupe inteiramente o vosso pensamento.” (Fp. 04:08)

De cara já podemos perceber que a Arte possui todos os atributos daquilo que deve ocupar o nosso pensamento. A Arte, além de ser intrinsecamente bela, possui verdade, é respeitável, justa, pura, amável, é de boa fama, é virtuosa e possui louvor. De tal maneira, nós já podemos pensar em uma provocação bastante interessante: contemplar boa arte é seguir o conselho paulino que foi dado aos filipenses.

DEUS COMO O AUTO DO BELO

Como eu afirmei no começo no presente texto, cosmovisões pragmáticas e utilitaristas praticam o mesmo equívoco do dualismo que oriundo do gnosticismo: o não reconhecimento da soberania de Deis sobre todas as coisas, inclusive sobre o material e temporal, e as suas implicações. Ora, derrubar os muros do dualismo, do pragmatismo, do utilitarismo e também do novo gnosticismo é reconhecer a soberania total de Deus sobre o que menos imaginarmos, inclusive sobre a Arte.

“Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em que não pode haver variação ou mudança.”

(Tg. 01:17)

O texto é claríssimo: tudo o que é bom só pode ser oriundo de Deus. Detalhe para o pronome: TUDO!. Todas as características da verdadeira e boa Arte dialogam com os dois textos bíblicos que vimos até o momento e também com a ideia da soberania de Deus e isso por um só motivo: É DEUS O ÚNICO AUTOR DE TODA A BOA ARTE E TAMBÉM DE TODA A BELEZA!

Sim, Deus criou a Beleza, foi somente Deus quem criou a Arte, é ele o Primogênito dos artistas, a única e também real fonte de toda Beleza. Eu gostaria de desenvolver mais um pouco essa ideia e mostrar que, por isso, o cristão deve se preocupar – e muito – com a Arte que aprecia.

Quero começar do começo, “com as boas coisas devem ser”. Eu quero começar a partir da Criação.

O relato que encontramos nos primeiros capítulos revela-nos um pouco o ambiente que existia, “sem forma e vazia”, diz a Bíblia. O lugar não era o melhor de todos. Havia trevas, confusão, era informe, era vazia, era completamente inabitável por qualquer ser vivo. Apenas Deus, em sua grandeza e majestade suprema havia.

Por seu querer e pela Sua palavra, Deus, então, começa a criar o que hoje há. Faz os luminares, separa as águas da terra, criar todos os seres vivos, entre plantas e animais e, finalmente, cria o primeiro casal da história humana. É interessante notar que Deus cria a coroa de Sua criação apenas depois de preparar todo o ambiente para recebê-la, o que nos mostra ao criar, Deus não estava preocupado apenas na utilidade coisas que por Ele foram criadas, mas sim em todo o caráter estético que elas possuem. Arte e Beleza não possuem um fim em si mesmas por causa e sua utilidade, mas simplesmente pelo que elas são: belas. Muitas coisas na vida são assim. lembre a Bondade, a Amor, a Amizade não possuem uma utilidade pragmática, mas precisamos muito de tais coisas para viver em paz. Observe o item que ilustra a imagem deste texto, as belas flores. Elas podem não evangelizar, mas em sua própria existência e essência, falam e glorificam a Deus, conforme é possível ler no primeiro capítulo a carta paulina aos romanos. E após contemplar Suas criações, o Grande Arquiteto do Mundo declara: “é bom!”. É altamente válido perceber que Deus criou “o mundo e tudo o que nele há” não de qualquer maneira, mas preocupou-se com a bondade de Seus feitos, tudo o que ele criou é complexo, revela a Seu poder, criatividade, atributos, enfim: a Sua criação inteira é bela. Não tem como duvidar disso! É só olhar a Criação ao nosso redor, os recursos e bens naturais que nos impressionam tanto em sua beleza a grandeza e cada coisa criada sendo digna de estudos e estudos que nos mostram os detalhes do que foi criado! Assim, o ponto partida da contemplação cristã da Beleza é exatamente a própria Criação de Deus e fazer isso de modo que a nossa alma se alegre imensamente no Criador e não na criação, de maneira que nossa contemplação do Belo seja tomada de sentido. Eu não estou dizendo que a Criação deve receber culto e nem que a Criação é arte em si, mas, sim, que ela possui Beleza no que ela é. Por fim, é só pensar: se a Criação do Senhor revela tanta Beleza e Estética, o que dizer da boa Arte que também é criação Dele? Se é de Deus que vem toda a Beleza e por meio dela posso percebê-lo, por que reduzi-la e não tratá-la de maneira valorosa e também importante? Reflita.

CONCLUSÃO

Ao final deste texto conclui-se que os cristãos devem se preocupar com a arte sem atribuir a ela importância somente sob um pensamento utilitarista-pragmático, mas pelo fato de a característica estética da Arte que lhe intrínseca estar relacionado com a Beleza que só poe ser criação divina, a Arte possui um fim em si mesma e para s cristãos funciona como um meio em que a Graça de Deus é revelada.


BÔNUS:

Abaixo está a palestra de Jonas Madureira, intitulada “Cristianismo e Arte“, em que ele detalhas as posições que foram devidamente apresentadas no texto acima:

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Um comentário em “O CRISTÃO E A ARTE #1: Deus como o autor do Belo

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