“Cada conto, cada vírgula da história, toda a poesia, todo o canto, toda a prosa é sobre Jesus, o Cristo Redentor.”

ARIANNE – De A a Z

 

Introdução

No primeiro texto da série “O cristão e a Arte” eu tratei Deus como o único e também possível autor de todas as expressões esteticamente falando belas e artísticas. Enfatizei o caráter estético da Arte e como tal atributo artístico, por conta de sua existência e características, só podem ser oriundos do querer divino e, portanto, deve fazer parte sim da vida cristã.

No segundo texto da presente série eu quero comentar exatamente isto: uma vez que a beleza e, portanto a Arte, como expressão máximo de Beleza, possui como autor Deus, ela deve fazer parte do cotidiano cristão. Mas, falando de uma perspectiva prática, o que significa afirmar isso? Responderei tal questão nas linhas que seguem.

 

O cristão e a percepção do Belo

Como eu afirmei no primeiro texto, Beleza é algo que podemos constatar ao nosso redor e eu não estou falando de Arte ainda. Pode-se citar, por exemplo, a Criação, a beleza das pessoas, etc. Tudo isso só pode vim de Deus, pois “toda a boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto” (Tg. 01:17). No caso da Criação, segundo o relato de Gênesis, o ser humano foi a última coisa a ser criada e por conta do ambiente inóspito que havia antes de existir o que hoje há, Deus preparou todo o ambiente, deu forma e vida àquilo que não tinha para que o Homo sapiens habitasse a Terra. Nessa parte Deus não se preocupou apenas com a função que as coisas teriam, mas também com as suas formas. E assim é para que a própria Criação revelasse o Eterno e que o homem O identifique também a parte dela (Rm. 01:20-21/Sl.19:01-04). Ora, se a Criação também fala de Deus, que é belo, Ela não poderia ser feia, correto? Assim, a Criação glorifica a Deus não somente por ela servir para algo, mas simplesmente por ela ser bela! De tal forma pode-se fazer uma constatação interessante e raramente feita nos púlpitos: o cristão deve perceber o Belo ao seu redor para que ele renda glórias a Deus.

Cristãos devem ser como crianças que se impressionam sobrenaturalmente com coisas que consideramos ordinárias (é Rodolfo Amorin quem faz tal observação). Veja como uma criança se alegra quando vê uma flor, um animal. Veja como ela deseja tocar algumas pessoas que encontra, note como ela interage com as cores em seus primeiros desenhos, olhe como, em zoológicos, em festas, parques temáticos, etc, as crianças se surpreendem desesperadamente com a fauna ao seu redor e como elas querem observar, apalpar, nos mostrar e nós, muitas vezes, a tratamos com indiferença, pois perdemos a característica infantil de nos apaixonarmos pelo comum. Sim, nós precisamos ser como crianças e nos encantarmos profundamente com o que está ao nosso redor e fazer isso para a glorificação do Eterno!

Certa vez eu ouvi uma analogia interessante: se um amigo seu lhe dá uma caixa de bombons como presente, você não irá olhar para a caixa e dizer: “ó, caixa de bombons, muito obrigado por você existir e me alegrar com os seus doces, eu agradeço a você”. Não! Você vai olhar nos olhos do seu amigo e agradecê-lo pelo simpático presente. Isso tem tudo a ver com a vida cristã. Ao contemplarmos as coisas criadas não agradecemos a elas, mas ao Autor delas, pois, afinal de contas, elas foram criadas e só existem por causa de Alguém. Aqui, no caso, a percepção cristã da Beleza nas coisas criadas deve nos levar a agradecer a quem nos deu tais presentes: Deus! Presentes esses que nos servem e que nos impressionam por sua tamanha beleza. Sendo assim, aprenda a, como crianças, perceber as coisas que estão ao seu redor como coisas belas que revelam o Deus Trino e Soberano, o único Criador de todas as coisas. Sei que por conta de nossas rotinas corridas e também por conta de nosso pragmatismo, adotamos uma seletividade rígida que nos tira a sensibilidade e a alegria das pequenas coisas. Assim, ande na contramão e acorde vendo o nascer do sol como algo que fala de Deus sem ser gospel ou evangelizar. Saia na rua, veja a beleza do céu e glorifique a Deus pela beleza e imensidão dele. Olhe com mais carinho para as plantas e animais e perceba nelas a manifestação da existência do Deus poderoso, criativo e inteligente. Alegre-se com os cheiros e gostos de seus pratos preferidos. Imagine se na nossa alimentação não houvesse o que hoje chamamos de saboroso! Imagine se a vida fosse completamente em preto e branco? Elogie a beleza, o perfume das pessoas. Alegre-se com a beleza dos seres humanos, com os fenômenos naturais, com o conforto da chuva e do frio. Faça isso e seja sensível a ponto de glorificar a Deus com o ordinário, olhe para o que você não olhava e agradeça a Deus por isso. Tenho certeza que você exaltará ainda mais a Deus. Olhe tudo para o que for belo e lembre de que isso só é possível por causa de Deus e agradeça, louve a Ele. Eis o lugar da Beleza na vida cristã: servir para a exaltação de Deus e alegria dos seres humanos. Como precisamos da Beleza!

 

O cristão e a contemplação artística

Eu pretendo escrever aqui no blog um texto a respeito da contemplação artística por parte do cristão, especialmente no que se refere à música, mas darei aqui uma breve pincelada sobre o assunto.

Uma vez tendo a correta compreensão de que tudo o que é belo, por si só, glorifica a Deus, e que a Arte é compreendida como ela sendo a manifestação do Belo; logo entende-se que toda a boa Arte (bela) glorifica a Deus simplesmente por ser bela, independente de sua fonte (sim, isso também inclui a Arte não religiosa).

A questão é mais simples do que se imagina: filmes, músicas, peça de teatro, quadros, danças, etc, se forem belas glorificam a Deus mesmo se não forem feitas por cristãos e isso por que são belas e tudo o que é belo só vem de Deus! Ponto. Quais são as consequências práticas disso? Vamos continuar com o raciocínio do tópico anterior: a contemplação do Belo para a glória de Deus. Vamos, agora, aplicar isso à boa Arte.

Uma maneira de observar e nos alegrarmos no Belo para a glória de Deus é por intermédio de Sua própria Criação. Entretanto, Graças a Deus que a Arte existe e por meio dela Deus também pode – e deve – ser glorificado. A grande crise é que, na grande maioria das vezes, enquanto cristãos, cremos que as mais variadas expressões artísticas só são válidas se elas servirem como panfleto evangelístico e gospel. Com tal raciocínio, só ouvimos música feita por cristãos para, muitas vezes, a usarmos em nossos cultos. Só fazemos “cinema” na igreja se o filme vier da “Hollywood gospel”. Teatro na igreja só se for com aqueles clichês. Danças, então, eu nem preciso comentar tendo em vistas as muitas controvérsias sobre o assunto. Com essa forma de pensar e desfrutar a Arte cristãos cometer dois erros:

 

01 – Limitam a sua própria bagagem cultural e seu repertório artístico;

02 – Absorvem a falsa crença de que toda expressão artística que é desenvolvida por cristãos realmente é boa. A experiência tem demonstrado exatamente o contrário, pois não são poucas as obras “artísticas” oriundas de cristãos que pecam em diferentes aspectos e que são consumidas por cristãos por conta da adoção de uma cosmovisão limitada empobrecedora.

 

Então, o primeiro passo para o desfrutar cristão da beleza artística é romper com o dualismo, pois as coisas simplesmente por serem belas glorificam a Deus. Assim, sinta-se livre para consumir arte não cristã e glorifica a Deus com isso! Eu posso ter te chocado, caro leitor e talvez você deve estar pensando que eu enlouqueci. “Como é isso? O que legitima um cristão a ouvir, por exemplo, música não cristã? E ainda mais para a glória de Deus!” Bom, o texto ficaria demasiadamente enorme para eu explicar por quais motivos isso é viável (a questão vai muito além do velho “não tem nada a ver”), mas eu quero convidá-lo a estudar coisas como Graça Comum, as implicações da doutrina bíblica da Soberania de Deus e Neocalvinismo. Procure também as passagens bíblicas em que autores fizeram uso de textos pagãos para compor a revelação de Deus (!!!). Entretanto, eu quero deixar uma provocação: beleza, você pode achar errado um crente ouvir música não cristã, mas quantos filmes não cristãos você não já viu? Quais foram as vezes que, antes do culto de domingo, você ficou torcendo pelo seu time do coração em um “esporte mundano”? E as roupas que você veste? Elas foram feitas por cristãos? E o que dizer dos jornais e novelas que tanto amamos? Pois é… O que eu estou tentando dizer é apenas uma coisa: desfrute de toda expressão artística que for bela, que reflita bons valores, que for boa e assim você estará glorificando a Deus e, dependendo da obra consumida, até pensando a Eternidade. Faça isso e não importe se for um crente ou não quem a fez. Você pode se surpreender muito nessa caminhada…

Mais aí temos um problema… “Qual?” Parece-me que são poucos os cristãos que se importam em enriquecer-se artisticamente. Para muitos, o consumo artístico só possui caráter religioso, congregacional e litúrgico e nem sempre é construído sob bons filtros. Quantos cristãos você conhece que investem tempo procurando bons músicos, que apreciam ver um bom filme, que gostam de Literatura (e que gastam parte do seu salário comprando bons livros regularmente e são leitores assíduos), que visitam constantemente museus e teatros? Que sabem o que é um sarau? Que já foram a um? Que sabem que homens como Tolkien, Lewis, Bach, Rembrandt, Chersteton foram cristãos que até hoje são vistos com profundo respeito por suas produções artísticas, até mesmo por não cristãos? Eu espero que você responda positivamente a essas perguntas (e que você seja um desses cristãos). Caso não, aí está mais uma celeuma: são muitos os cristãos que abraçaram a não importância à Arte que algumas pessoas têm dando, a tratando como algo dispensável, mas a verdade é que a Arte, a boa Arte, é indispensável! E por que ela é importante? Ora, pelo grande motivo que tem sido o argumento central deste texto: por que a boa Arte é bela, é boa e só por isso ela glorifica a Deus e vem dele, entendeu? Nós, enquanto cristãos devemos separar um grande espaço de nossa espiritualidade para a contemplação artística para que ela nos enriqueça e possamos, nela, glorificar a Deus e perceber o ecos da Graça de Deus que insistem em aparecer em meio a tanto pecado (Soli Deo Gloria!). De tal forma eu quero motivá-lo, leitor, a se aproximar da boa música, da boa literatura, do teatro, da dança, da pintura, enfim, e fazer isso de maneira que o edifique, o aproxime ainda mais de Deus e que relembre você todos os dias dele! Louvado seja Deus pela Arte que é bela. Ela, por ter origem divina pode nos ajudar a amarmos ainda mais a Deus!

 

“Toda a Arte que eu faço, todo o som entoado, não é mais que uma grande vontade de Te conhecer!”

MARCOS ALMEIDA – “Eu olhei o meu dia” (Palavrantiga)

 

Conclusão

Conclui-se o presente texto afirmando que cristãos devem separar em suas vidas um espaço e tempo para a percepção do Belo e também para a contemplação artística tendo em vista que, pelo fato de a Beleza possuir origem divina, ela pode servir para a glória dele e edificação nossa. Conclui-se também que o cristão precisa preocupar-se com o consumo de boa Arte por conta da Beleza que só pode vim de Deus e que, para isso, ele necessita, muitas vezes, rever os conceitos sobre Arte e o quanto ele a considera importante. Em tudo damos graças a Deus e em tudo Ele é glorificado! Deus o abençoe e até o terceiro e o último texto da série onde eu abordarei alguns pontos que podem ajudar os cristãos a valorizem a Arte em seu dia a dia e a solução para alguns problemas que possam existir nessa área. Até lá, querendo o Deus artista.

 

 

 

 

 

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