Introdução

Chegamos ao final da série “O cristão e a Arte” aqui no blog Outro Ponto. Com sinceridade, eu espero que tenha contribuindo para as reflexões a respeito desse tão importante tema que, infelizmente, é negligenciado em muitos arraias. No presente texto eu apontarei aqui dois famosos problemas ainda existentes que impendem que cristãos se relacionem com as expressões artísticas de maneira saudável e proporei algumas soluções para os mesmos. Partiu?

 

Recapitulando

Antes de continuarmos eu gostaria de relembrar um pouco do que eu já tenho tratado nos outros dois textos, tudo bem? Então vamos lá!

01 – O conceito de Arte está intimamente relacionado ao conceito de Belo. Ou seja, para que as expressões que categorizamos com artísticas (música, pintura, teatro, etc) serem consideradas realmente como tais, elas necessitam obrigatoriamente serem belas. Mesmo que se fale o contrário hoje, Beleza não é algo subjetivo, mas sim objetivo; ou seja: é, sim, possível estabelecer diferenças entre boa arte e arte ruim. Nada justifica a Arte, já dizia o neocalvinista Rookmaaker. Para a Arte ser legitima, ela não necessita servir ideologias ou religiões, basta apenas ser bela, portanto boa. A Arte possui dignidade em si própria e ela é um fim em si mesma.

02 – Deus é o único criador e Senhor de tudo aquilo que for belo. TUDO! Assim, cristãos devem, sim, se importar com o consumo de boa arte, tendo em vista que isso serve para a nossa edificação e reconhecimento dele. Entretanto, é necessário ir mais além e entender que, por causa disso, é lícito ao crente contemplar boa arte mesmo que ela seja fruto do ímpio (lembra da Graça Comum?). Como diz Vinícius Pimentel, a Arte pode ser uma esfera que independe da igreja, mas nunca de Deus.

 

Vamos prosseguir agora…

 

Problemas e soluções

Talvez pelo fato de este tema ser tão pouco trabalhado em algumas igrejas, alguns cristãos bastante piedosos possuem uma certa confusão ao tentar compreender a Arte e qual é o seu valor e lugar na cristandade. Assim, pelo menos dois problemas aparecem. Nas linhas que se seguem eu os apontarei e eu também irei propor algumas soluções para eles dois.

 

PROBLEMA I: cristãos não podem consumir Arte

SOLUÇÃO:

Apesar de quase extinto, esse problema ainda existem, pois ainda existem cristãos e denominações em que não é permitido desfrutar de artefatos artísticos e culturais. Assim, para essas pessoas, não é lícito ao crente, por exemplo, desfrutar de canções não cristãs, ver TV, acessar a internet, etc. Em alguns lugares a radicalidade é ainda pior: instrumentos musicais e palmas não são permitidos no culto (salvo raras exceções, como o órgão), pinturas e artes plásticas são consideradas altamente profanas, etc. Isso acontece, pois esses cristãos traçam uma relação de causa e efeito entre tais expressões de arte e práticas pecaminosas. De certa maneira, eles não estão errados, contudo pensar mais um pouquinho não custa nada a ninguém, não é verdade? A solução para tal problema encontra-se na construção do pensamento da relação entre Arte e Beleza e da soberania exaustiva de Deus sobre essas áreas fazendo, assim, que o consumo artístico por parte de cristãos torne-se, pelo menos, lícito. Se esse problema não for resolvido com argumentos ortodoxos podem haver dois riscos: ou se abraça uma ideia liberal que sacraliza em demasia a Arte – o que é pecado – ou se continua com o mesmo pensamento equivocado, o que, por sua vez, irá promover legalismo, religiosidade vazia, orgulho, vaidade e crentes querendo ser melhor que os outros e isso é igualmente pecaminoso.

 

PROBLEMA II: o cristão pode contemplar Arte, sim, desde que ela seja fruto de outros crentes e que seja igualmente evangélica.

SOLUÇÃO:

Para chegar à solução de tal problema, é altamente necessário pensar em algumas outras coisas: por quais motivos o cristão não deve consumir arte não cristã? Só por quê ela é oriunda de um não cristão? Por causa do pecado? Vamos ver…

Se cristãos não podem consumir arte não confessional simplesmente por ela ser feita por um não crente, o que dizer da roupa que vestimos, dos aparelhos eletroeletrônicos que usamos, dos programas televisivos que vemos, dos livros que lemos, etc? Todas essas coisas – e muitas outras – inevitavelmente, em sua grande maioria, foram confeccionadas por não cristãos, e aí? Percebe o quão frágil (e hipócrita) é esse argumento?

Ok, agora alguém pode questionar: “mas existem obras de arte não cristãs que são uma afronta à fé!” e isso é inteiramente verdadeiro. Infelizmente, por conta do pecado, existem peças artísticas que zombam, escarnecem e estão na contra mão dos princípios bíblicos e de tais peças, obviamente, o cristão deve se abster. Entretanto, uma má compreensão desse pensamento pode nos levar a alguns equívocos, por isso, vamos abrir um novo tópico agora.

 

Graça Comum x Antítese

A teologia protestante bíblica ao tratar de Graça nos explica que ela é o favor de Deus que é concedido aos seres humanos ainda que os mesmos não o mereçam. Nisso o conceito de Graça é divido em dois tipos: a ideia de Graça Específica (ou salvífica, especial) e Graça Comum. Não se trata aqui de propor que existam dois tipos de Graça, mas sim afirmar que o mesmo conceito de Graça (o favor imerecido) se manifesta de formas diferentes.

A Graça Específica é a salvação em si, o perdão definitivo de pecados, a justificação, a eleição. Nada mais do que as consequências da vitória de Jesus Cristo sobre a morte: a concessão de vida e eterna e perdão a todo o indivíduo que crê. Por outro lado, a Graça Comum refere-se à “Graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da Salvação. A palavra “comum” aqui significa algo que é dado a todos os homens e não é restrito aos crentes ou aos eleitos somente” (GRUDEM, Wayne). Ou seja: chama-se de Graça Comum todas as bênçãos que Deus insiste em dar a todos os seres humanos, sejam eles eleitos ou não, mesmo sem merecimento algum por parte deles. O texto áureo da doutrina bíblica da Graça Comum é Mt. 05: 44-45 onde Jesus Cristo afirma que o Pai derrama a chuva e faz o sol brilhar sobre os bons e maus, sobre os justos e os justos e os injustos. Contudo, a ideia extrapola os fenômenos naturais, pois é possível observar que tanto ímpios como justos são agraciados por Deus por coisas boas como riqueza material, inteligência, criatividade, etc, sendo que muitas vezes, réprobos produzem coisas excelentes que os próprios crentes consomem! Observe, soaria estranho afirmar que os ímpios conseguem essas coisas pelo seu próprios esforço, pois quem é o único Senhor sobre as suas vidas? Que os acorda e dá a eles o alimento diariamente? Que os protege? Eles mesmos? O Diabo? Pois é… Por mais incrédulo que a pessoa possa ser, Deus continua atuando sobre a sua vida e sendo glorificado com os seus feitos mesmo que isso não o conduza à salvação e que ele não reconheça Deus. Basicamente, isso é Graça Comum.

O intelectual que mais se propôs a estudar a Graça Comum foi o neocalvinista holandês Abraham Kuyper (1837-1920). Ele não ficou desenvolveu apenas a ideia de Graça Comum, mas criou uma dicotomia interessante, ele pensou na Antítese.

Kuyper acreditava, sim, na Graça Comum e relacionava os bons feitos dos ímpios a essa doutrina. Por outro lado, ele não poderia se esquivar das Escrituras e, portanto, reconhecia também a doutrina da Depravação Total que, segundo a famosa Confissão de fé de Westminster, refere-se ao fato de que após o pecado original, a desobediência de Adão e Eva, “o delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária. Desta corrupção original pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as transgressões atuais”. Assim, fica o questionamento: como pensar a Graça Comum com a realidade de que todos os seres humanos são pecadores e inclinados para todo mal em suas decisões? Para resolver a presente celeuma, Kuyper desenvolve o conceito de Antítese que consiste na compreensão de que por mais que Deus, em sua Graça Comum, conceda a todas as pessoas, sem exceção, a capacidade fazer coisas boas, todas elas ainda estão sob o jugo do pecado e continuamente seguem se afastando do Criador. Na prática, o que a Antítese significa? Por um exemplo, um músico talentosíssimo pode usar dos atributos musicais que Deus lhe deu (por intermédio da Graça Comum) para colocá-los a serviço do pecado e da blasfêmia. Eis, então, a Antítese! Em outras palavras, o ser humano, por conta de seu pecado, pode usar dos benefícios que Deus lhe dá para o prática pecaminosa. Podemos relacionar essa ideia ao texto de Rm. 01:21-23, pois mesmo Deus tornando-se visível em Seus feitos, os pecadores, por conta de sua natureza caída, insistem em adorar e servir ao criatura ao invés do Criador (Rm. 01:25).

 

Voltando

Agora, após toda essa explicação, voltemos à posição de que o cristão só pode consumir arte confessional, pois a arte não cristã está inundada de pecado. Bem, ao propor a relação Graça Comum x Antítese, Kuyper nos apresenta uma solução para esse problema. A Arte – seja ela cristã ou não cristã – pode ser consumida por cristãos com base nas ideias da Graça Comum, na soberania exaustiva de Deus e também no pensamento de que o Belo, ontologicamente, glorifica a Deus. Entretanto, o cristão deve ser o mais refinado possível e possuir bons filtros que dirijam a sua contemplação artística. Esses filtros pode ser a revelação verbal e escrita de Deus e o senso de beleza e, sim, podemos encontrar obras de arte que passem por esses filtros sem que essas sejam produzidas por cristãos. São muitas as obras de arte que possuem beleza e trazem consigo elementos da cosmovisão cristã, até mesmo as obras de arte não cristãs! A Antítese entra exatamente em três aspectos:

01 – Ajudar-nos a escolher melhor o consumirmos em se falando de Arte;

02 – Separar o justo do injusto, ou seja: o que é lícito contemplar e o que não é;

03 – Saber identificar elementos mentirosos em algumas peças artísticas e reconhecê-los como sendo manifestação do pecado, o que nos levará de volta à tensão que há entre Graça Comum x Antítese, o que nos fará mais preparados ao nos relacionarmos com o mundo e nos dará autonomia para nos colocarmos enquanto cristãos. De tal maneira, os cristãos devem sempre sujeitar a sua mente ao que a Palavra de Deus nos instrui e jamais à cosmovisão que um artista não cristão pode expor em suas obras, mesmo que a mesma possua rastros de verdade, pois o pecado o impedirá, por conta própria, de se submeter as verdade escriturísticas. É preciso ter sempre em mente que o que a Bíblia nos diz não é mais uma verdade entre tantas que já existem, mas, sim, ELA É A PRÓPRIA VERDADE.

 

Conclusão

O que se pode dizer ao final de tantas observações sobre a relação entre Cristianismo e Arte? A Arte, enquanto Beleza, vem e pertence a Deus e, por conta disso, a contemplação artística deve, sim, ter um espaço na espiritualidade cristã de modo que ela renda glórias ao Artista Eterno e nos edifique e todo esse pensamento nos leva à possibilidade de exaltarmos a Deus com a arte não confessional, pois ela possui dignidade em si própria, desde que for bela e verdadeira. Assim, sejamos livres para consumir Arte para a glória de Deus!

A minha sincera oração é que Deus nos ajude a derrubar os muros que precisam urgentemente ser derrubados, nos livre de todo legalismo, secularismo, religiosidade e vaidade e que faça do Seu povo, pessoas que saibam se encantar com o Belo (artístico e não) e agradeça sempre a Deus por Ele. Louvado seja Deus por toda a beleza!

 

Soli Deo Gloria!

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