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Kivitz é um rapper sincero. Com um acervo de ideias e mensagens contundentes, o MC transpira verdades e algumas vezes de forma polêmica, como suas músicas “O Último Cristão”, que fala de um Cristo sem o jargão evangeliquês, e “Brisa Leve”, vista por alguns críticos como uma ideia marxista. Amado por muitos, odiado por alguns, Kivitz apareceu na cena por volta de 2014 e já lançou dois eps solo e um em parceria com o multi-instrumentista Will Bone, o aclamado “Horas Vagas”. Sem contar nos trabalhos audiovisuais muito bem produzidos e participações com nomes de peso na cena cristã como Daniela Araújo em “Abril” (Nação da Cruz), talvez a música que tenha notoriedade para o artista, Clovis Pinho (Preto no Branco) e Bekah Costa.

O Paulista cedeu uma entrevista para o nosso blog, estreando essa nova coluna aqui que mais ou menos uma vez por mês teremos uma conversa agradável com gente boa que faz coisas boas. Na conversa, Kivitz nos responde com muita humildade e não foge de nenhuma pergunta. Fala do seu álbum que pretende lançar ainda este ano, experiências pessoais e sobre política. Confira:

Outro Ponto: Kivitz, para começar, preciso saber o que tem tocado em seus ouvidos por esses tempos.

Vitor Kivitz: Tenho minhas fases alternadas entre Gil, Djavan e Caetano. Ultimamente tô mais Gil. De rap gringo tenho ouvido muito o Smino. Uma banda nacional que tenho chapado bastante é o Medulla, novos irmãos de alma e som.

OP: Você apareceu na cena do rap em meados de 2014 com músicas muito intrigantes como “O Último Cristão” e “Crente Block” e depois disso lançou seu primeiro EP, o riquíssimo “Casa diferente de Lar”. O que te inspirou a escrever mais e mais e lançar músicas fora do eixo gospel?

VK: Eixo Gospel não existe. O que existe são pessoas preconceituosas que só se permitem ouvir música “gospel”, com conteúdo religioso e vibe de adoração. Eu sou cristão e faço RAP. Qualquer pessoa que se identifica é muito bem-vinda.

OP: Fala um pouquinho pra gente sobre a música “Brisa Leve”.

VK: Gosto muito desse som. Eu descrevo uma utopia, aquilo que eu creio como um mundo melhor. Recebo críticas dizendo que ela é comunista, marxista. Tem muita gente ignorante. O brasileiro, politicamente, é uma criança. Um mundo sem armas, sem patrão, sem sofrimento, sem desigualdade, é um sonho marxista ou um sonho humano? Os debates são rasos. Por isso que nosso país gente como Dória e Bolsonaro ganham espaço. Eles atuam na faixa exata da ignorância política e da necessidade imediata de mudanças. Política é a gente debatendo que mundo queremos e como faremos para, como sociedade, chegar lá. É algo complexo e um processo demorado. Você tem duas formas de ouvir Brisa Leve: de um lugar ideológico ou de um lugar humano.

OP: Você acha que o rap para o cristão hoje ainda é visto como um tabu? Você sente falta de uma cena cristã de rap bem estruturada ou isso pra você não tem tanta importância?

VK: O RAP como estilo não é mais tabu. O RAP como conteúdo ainda é. Sobre a tal “cena cristã”, não existe e nunca vai existir, porque cena não tem religião, quem tem religião é gente. A arte quando é boa encontra espaço. Meu foco é fazer música boa.

OP: “Eu em 2005” é uma música autobiográfica? Fale um pouquinho dela e de como surgiu a parceria com o Jadiel.

VK: ‘’Eu em 2005’’ eu escrevi em 2005. Achei legal trazer ela pro EP de 2015 porque 10 anos antes eu enxergava a vida e o evangelho daquela maneira. Foi uma forma de mostrar que o RAP não era novidade na minha vida. Sobre o Jad, ele é meu amigo. A participação dele era um desejo antigo e encaixou bem demais nesse som. As pessoas gostam, pedem nos shows.

OP: Você lançou bons trabalhos audiovisuais como “Contra Contradição” que tem a participação mais do que especial de Clovis Pinho e a espinhosa “O Último Cristão”. Você pretende lançar mais trabalhos como esse e como foi o processo de produção desses clipes?

VK: Cada clipe tem um processo singular. O clipe do Contra foi no estilo “guerrilha filmes”. Eu mesmo produzi, escrevi, dirigi, etc. Alguns amigos me ajudaram e gravamos tudo em uma tarde. O clipe do Último já teve um processo mais profissional, equipe, um investimento mínimo, mas teve. Mais legal que fazer rap é fazer clipe de RAP, é uma paixão que eu tenho. Com certeza é algo que vou sempre procurar fazer.

OP: O “Fora Temer” interno é mais urgente que o “Fora Temer” social?

VK: Eles caminham juntos. O governo é o reflexo de seu povo. O FORA TEMER lá inspira o FORA TEMER aqui e vice-versa. Esse verso foi uma crítica aos meus irmãos dos movimentos sociais que invocam FORA TEMER mas dão golpe na mãe, na esposa, no cunhado. Nossa luta não é pelo poder, é por um mundo mais justo, e um mundo mais justo não tem TEMER nem no poder, nem na rua.

OP: Seu último trabalho em parceria com o Will Bone rendeu uma participação no Estúdio Showlivre e sua música chegou a mais lugares. Conta pra gente um pouco sobre essa parceria e se podemos esperar o volume 2 de “Horas Vagas”.

VK: Will é um dos caras musicalmente mais talentosos que já conheci, se não for o mais. Fora que é uma pessoa maravilhosa, um irmaozão que a música me deu. Nossa ideia é que no ano que vem saia o Volume 2, sim. Temos um sonho de levar o Horas Vagas pra estrada e ele está cada dia mais perto de acontecer.

OP: Você anunciou recentemente que irá lançar seu primeiro disco ainda este ano. Pode adiantar um pouco mais sobre o projeto? Vai ter alguma participação e pode dizer quais são?

VK: “Em nome do vento”. Vai ser meu primeiro álbum oficial, com começo, meio e fim. Fechei o projeto em 11 faixas e algumas participações, mas não quero divulgar ainda. Eu tô na vibe oposta do prefeito, tentando fazer as coisas com calma, no tempo natural de cada processo, composição, produção, captação, mixagem. Minha ideia inicial era lançar em agosto, mas com certeza vai atrasar um pouco.

OP: Agradecemos muito por você nos reservar um pouco do seu tempo para nos responder e desde já adiantamos que as portas do Outro Ponto estarão sempre abertas. Pode deixar um recado especial aos nossos leitores?

VK: Eu que agradeço! Meu salve é o seguinte: vamos tentar nos comunicar por aqui (internet) com mais amor! A gente conversa pelas redes sociais sem conhecer o outro, sem olho no olho, sem cheiro. Post não tem tom de voz. Vamos fazer um esforço pra ler e respeitar as opiniões dos nossos irmãos e irmãs, mesmo que elas sejam bizarras pra você. O sopro que deu vida aqui é o mesmo que deu vida ali, somos filhos do mesmo sopro. Um abração a todos!

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Um comentário em “Entrevista #01 – Vitor Kivitz: “O Fora Temer lá inspira o Fora Temer aqui”

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