Tem repercutido a polêmica envolvendo a controversa exposição que foi patrocinada pelo banco privado Santander. Trata-se da mostra intitulada Queer Museu, realizada em Porto Alegre. O evento gerou bastante barulho graças a sua temática LGBT e também por expor obras com reprodução de situações envolvendo zoofilia, pedofilia, homossexualidade e zombaria religiosa, especialmente ao Cristianismo. Após forte pressão popular, a exposição foi cancelada.

Eu não pretendo aqui opinar sobre o caso fazendo ponderações de ordem política ou moral, mas sim quero falar a partir da perspectiva artística. Após o cancelamento da mostra, os defensores da mesma começaram a a afirmar que o evento sofrera censura, pois se tratava de algo meramente artístico e, portanto, válido.

O portal G1, ao realizar uma matéria sobre o caso, procurou Gabriel Galli, jornalista e coordenador da ONG Somos, que trabalha na defesa dos direitos da população LGTB. Para ele, o cancelamento e as manifestações sobre a exposição revelam que ainda há um comportamento preconceituso e ofensivo para as questões de gênero no país. Em sua entrevista, uma colocação dele – que foi colocada em destaque na matéria – me chamou bastante  a atenção. Leia:

“Não há obras que tenham aspectos que possam chocar. E mesmo que houvesse, arte é pra isso.”

Para Galli, as obras mostradas na exposição nada possuem que possam chocar o público. Agora, observe atentamente algumas obras da exposição que foram divulgadas na internet. 

Atente-se para o fato de algumas das imagens mostrarem situação moralmente não aceitas, no mínimo polêmicas, mas mesmo assim, para Galli, não há nada demais, ninguém deveria se chocar, se sentir ofendido ou incomodado com as obras da Queer Museu. Entretanto, não é sobre isso que eu quero falar. Lembre do que Galli falou na entrevista ao G1: a arte serve para chocar. A cantora Clarice Falcão, ao divulgar o seu inadequado clipe ano passado também disse algo parecido (“Se não for pra causar eu nem posto.”) Mas será que é isso mesmo? 

Mesmo que se tente dizer o contrário, a Queer Museu não foi uma exposição artística neutra, sem motivações. Como bem lembra o reverendo Emílio Garofalo Neto na série de palestras intitulada Exegese Cultural (disponível no YouTube pela Escola Teológica Charles Spurgeon), a partir de Nancy Peacy e Schaeffer, toda obra de arte revela o que o seu autor pensa. Havia uma cosmovisão regendo a mente de todos os envolvidos na presente exposição: a ideia de que a arte é para promover o choque, a problematização, é para agredir. Se assim não for, dizem eles, a arte para nada serve. Tal pensamento passou a ser amplamente defendido a partir do Modernismo, principalmente com o advento das Vanguardas Européias que foram fortemente influenciadas pelo Darwinismo, a psicanálise freudiana e, mais tarde, pelo Niilismo de Nietzsche. Some tudo isso com a expansão do pensamento progressita, do Relativismo e também do Racionalismo e violá! Eis uma visão liberal que afirma que a arte serve para questionar os seus espectadores. 

O filósofo inglês Roger Scruton, no documentário “Por quê a Beleza importa?” (BBC) trata sobre tal problema e  crítica a visão utilitarista e pragmática da arte.  Para ele: “”Toda arte é absolutamente inútil”, disse Oscar Wilde, que havia notado isso como sendo um elogio. Para Wilde, a Beleza possui um valor muito maior do que a própria utilidade. Pessoas precisam de coisas inúteis tanto quanto, ou mais ainda, de coisas úteis. Pense nisto: qual é a utilidade do amor? Da amizade? Da devoção? Nenhuma, de fato! E o mesmo serve para a Beleza. A nossa sociedade consumista pensa na utilidade primeiro e a beleza não passa de um efeito colateral.” 

Scruton defende corretamente que a Arte nada mais é do que a exposição da Beleza, da Estética. E a Beleza, por sua vez, está intimamente ligada com a técnica e também com a criatividade. Dessa forma, sendo a Arte unicamente para a amplificação do belo, perde-se o valor dela toda vez que a tentamos diminuir tratando-a como uma ferramenta meramente utilitaria, pois esquecemos que a Arte é um fim em si mesma, não precisa servir a nada, pois ela possui dignidade própria em si mesma (Rookmaaker). 

A partir de Duchamp e seu Urinol, muitos passaram a defender coisas como tudo e nada é arte, todos são artistas, não existe arte e a arte só é válida se ela lhe der um soco no estômago. Ou seja: uma peça artística conhecida por sua beleza não serve, pois ela não possui utilidade. Observe um exemplo: atualmente, nas igrejas, preocupam-se bastante com a confortabilidade do templo, o seu tamanho, se terá salas de aula ou não, cozinha, banheiros, etc. Não há preocupação séria com os aspectos estéticos dele, pois acredita-se erroneamente que isso não é importante, pois o que realmente é a funcionalidade. Como resultado disso temos templos religiosos feios, sem nenhuma preocupação estética, que não encantam. Temos igrejas que não acreditam que a Beleza também glorifica a Deus por si só. Viu, como o Mundanismo é bem mais sutil do que imaginamos?

No caso da Queer Museu, não houve qualquer preocupação em evidenciar Beleza, mas claramente o objetivo era chocar, surpreender, questionar, problematizar, espantar, louvar o caos, ofender. Assim, tendo em vista que a Arte é inútil e que ele nada mais é do que a encarnação da Beleza, podemos considerar que o que a exposição mostrou realmente é Arte? E por quais motivos criticar isso seria preconceito, intolerância, desrespeito? Será que a intolerância e o desrespeito não partiram primeiro de quem decidiu simplesmente distorcer o sentido da Arte e expor as pessoas ao que é feio, repulsivo e errado por natureza? Como encontrar Beleza em um quadro mal desenhado com uma menina com as inscrições “Criança viada travesti da lambada”? Como se encantar com um desenho feio mostrando um relação sexual entre um cachorro, um adulto e uma criança? Onde está a Arte nisso tudo? A Beleza? E o que tudo isso tem a ver com a igualdade de direitos entre homo e héteros? 

A Queer Museu nada mais é do que o resultado de uma cosmovisão que não aceita a dignidade da Arte em si mesma em sua tarefa de mostrar a Beleza. Que acha que só tem importância o que tiver uma utilidadade concreta. Mas eu tenho uma notícia: a Arte não é como os nossos talheres, que só nos são úteis enquanto eles podem colocar a comida em nossa boca. Ela não é como as roupas que vestimos, as quais necessitamos para cobrir as nossas vergonhas. A Arte é inútil, mas sempre que a tratarmos sob um viés pragmático, apenas como uma refém de nossos objetivos, veremos o quanto precisamos dela; o quanto precisamos da ordem e da Beleza. Por favor, deixem a Arte ser Arte! Ela é digna em si mesma e não precisa de interferências de terceiros. A Arte não para nos chocar, mas sim para ser bela. E como isso faz a total diferença para nós.

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