O objetivo aqui do blog Outro Ponto é tratar o Cristianismo não apenas como uma parte a mais na vida de algumas pessoas que dizem crer no filho de Deus. Muito pelo contrário, a ideia é abordá-lo como toda a vida. Mostrar que a caminhada no Evangelho não diz respeito a apenas praticar alguns rituais religiosos e muito menos abrir mão de toda a vida que temos, considerada “secular” ou “mundana”. Entendemos que a fé cristã é riquíssima e fornece os melhores recursos para a compreensão da vida em todas as suas esferas (todas). Para isso, faz-se necessário de algumas doutrinas tais como as suas implicações práticas, como a Graça Comum, Revelação Geral, a Soberania exaustiva de Deus, etc. Assim, fazendo jus ao nome, queremos de fato propor um novo ponto na discussão acerca da relação do cristão com um mundo. Queremos oferecer uma perspectiva de pensar que mostre ao cristão o seu desafio de cuidar das coisas criadas e aproveitá-las como elas sendo dádivas enviadas pelo próprio Deus em Sua infinita Graça.

A proposta aqui do blog também está implícita em algumas postagens que aqui estão. Eu penso que a principal característica daqui é o desapego total a qualquer pensamento religioso sectário, farisaico e dualístico. Assim sendo, o mundo e as produções humanas não são vistas em contraposição com a fé cristã, mas, muito pelo contrário, há a incessante busca por Deus na cultura, seja ela qual for. Este pensamento surge em protesto a uma onda de ideias religiosas que buscam uma separação entre o sagrado e o profano, santificando o que há no templo e demonizando o que está fora dele, parecendo como se Deus se manifesta apenas no domingo à noite e na música gospel. E por falar em música…

O principal exemplo de tal pensamento dualista e retrógrado (retrógrado, pois ele remonta à Igreja Católica medieval que separava o sagrado do profano como duas esferas distintas e também incomunicáveis, punindo cruelmente o profano. Esta situação estava presente inclusive dentro do contexto da Reforma, onde o templo religioso era visto praticamente como um “mini céu” e a palavra do papa era “o próprio Deus falando”.) com certeza é a balela de que a “música do mundo” (entende-se aqui “música do mundo” como qualquer produção musical não religiosa, de origem não cristã e também não confessional) é do Diabo e cristãs e cristãos não devem usufruí-la. Ora, e música instrumental? E os clássicos da música clássica? A música histórica, barroca? As músicas que remetem a princípios bíblicos ou que simplesmente não fazem nenhum ataque a religião? Como fica? Então, respostas pouco inteligentes são ouvidas. Mas já foi bem pior no passado. A história nos diz que instrumentos como violão, guitarra, sintetizadores, bateria, instrumentos de percussão e outros pouco convencionais, conhecidos e utilizados deveriam manter-se distantes completamente do ajuntamento dos santos na congregação, sobrando apenas o órgão e o piano (eu não estou aqui denegrindo tais instrumentos. Eu reconheço a sua importância e utilizações no culto e até mesmo eu defendo o seu uso). Ouvimos pessoas nos dizerem que líderes proibiam a audição e visualização de algumas obras (algumas até mesmo religiosas), correndo o risco de sérias punições, provocando um verdadeiro tráfico ilegal de música boa. A histórica Banda Êxodus, autora da icônica “Nos galhos secos” sofreu gigantescas perseguições, por ser a primeira banda de rock no Brasil formada por pessoas que confessavam a sua inclinação ao Cristianismo, sendo até mesmo expulsos de igrejas, chamando, inclusive a atenção da revista Veja no escuro período da Ditadura Militar que fez uma matéria com os rapazes. A Banda Catedral, mesmo enquanto produzia para o nicho evangélico não deixava de ser crucificada e quando anunciou a sua interação entre o evangélico e não evangélico participando de diversos círculos não cristãos, mas sem abandonar os princípios bíblicos, aí o problema aumentou. Boicotes, mentiras e polêmicas, comparações com outras bandas por parte de religiosos e outras pessoas foram o preço que Kim e a sua trupe tiveram que carregar, fazendo com que a Banda tivesse uma rotina de esclarecimentos sem fim e até hoje eles passam por constrangimentos, mas quando começaram eles foram a primeira cristã hibrida em dois circuitos diferentes, fazendo-a pioneira e histórica para a música nacional. Até mesmo quando o irmão de Kim faleceu tragicamente em um acidente automotivo as críticas não cessaram. Oficina G3 e Novo Som estranharam ao cantarem com recursos vocais nunca antes utilizados por outros artistas juntamente com pedais duplos, efeitos, distorções exagerados, etc. Mais tarde a música evangélica polemizou mais ao sair da homogeneidade, adotando outros ritmos como Funk, Samba, Música Eletrônica, etc. O clamor que pedia a renovação iniciado dentro do revolucionário movimento gospel dos Jesus Freaks (não tem nada haver com o Lucinho Barreto, gente!) nos Estados Unidos da América chegava a passos lentos no Brasil. Foi mais ou menos neste mesmo período que as teorias de conspiração evangélicas envolvendo a Disney, a Xuxa, o 11 de setembro, a maçonaria, começaram a explodir só aumentando o dualismo e a irrelevância cristã ante os profundos desafios culturais de seu tempo. Enfim, são histórias que só evangélicas e evangélicos conhecem. Estes problemas apenas evidenciam um sério problema que, infelizmente (mas infelizmente mesmo!), ainda é enfrentada hoje na esfera cristã nacional. Por mais que progressos tenham ocorrido nesta área, ainda existe muito (muito mesmo) o que desbravar na espinhosa e também densa floresta religiosa.

Muitas pessoas ainda passam, tristemente, por uma grande crise interna esquizofrênica, dualista, anti-bíblica e, portanto, anti-cristã ao pensarem na relação entre Cristianismo, Cultura, Arte, Fé, Deus, Sociedade, Pecado, Graça. É um medo gigantesco, uma ignorância das grandes, um patrulhamento ideológico esquisito e sem razão. Os problemas que enfrentamos com as canções ditas seculares e outras coisas mais que longe estão do contexto eclesiástico não são somente um moralismo, mas as evidências de um problema maior, a ponta de um iceberg: a problemática do relacionamento entre Cristianismo e Cultura e o afastamento do que não é sagrado. O problema da perseguição contra a música não religiosa não é algo que é corretamente explicado por si só, mas corresponde a menor parte de um problema mais sério e também antigo.

Hoje existe a necessidade do envolvimento participativo e relacional entre cristãos e cultura como parte de uma perspectiva cristã integral principalmente ante ao contexto contemporâneo em que estamos. O iceberg volumoso e profundo do problema do cristão com as práticas culturais precisam urgentemente ser superadas, o iceberg precisa derreter o quanto antes. Para isto, a leitura de alguns autores, a quebra do dualismo, a vivência cristã integral, o voltar a algumas doutrinas esquecidas e uma espiritualidade mais profunda faze-se necessárias. Queira Deus que o iceberg enfim derreta e que os cristãos não sejam mais uma subcultura que é altamente marginalizada, ma que passem logo a serem verdadeiros integrantes protagonistas da sociedade e também altamente indispensáveis a ela.

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